Precisa-se de Um Noivo
Groom Wanted  
 Debbie Macomber
 
A escolha estava feita. Tinha de ser esse homem!
Aleksandr Berisnki, um brilhante bioqumico russo, estava com os dias contados em territrio americano... a menos que se casasse! E com quem poderia se casar a no ser com Jlia Conrad, a mulher que necessitava de sua permanncia no pas? A indstria iria  falncia sem o auxlio dele, e Aleksandr sabia estar perdido sem Jlia em sua vida.Ela, porm, marcada pelo passado, no ousava arriscar outro envolvimento romntico. Se tivesse de haver um casamento, seria apenas no papel. Mas os beijos apaixonados de Aleksandr e sua ternura estavam prestes a romper todas as defesas de Jlia!

Digitalizao e Correo: Nina
 

Srie Agora Em Adiante (From This Day Forward)

Ordem	Ttulo	Ebook	Date
1	Groom Wanted
Sabrina Noivas 19 - 
Precisa-se De Um Noivo	Aug-19932	Bride Wanted

	Sep-19933	Marriage Wanted

	Oct-1993



Ttulo original: Groom Wanted  
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1994
Edio original: 1993  Gnero: Romance Contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida








CAPTULO I

Jlia Conrad, mulher equilibrada, no era em geral paciente, e s vezes podia se tornar fria como o gelo. Naquele instante andava pelo escritrio, inquieta. Sentia-se to indefesa! Devia ter ido com Jerry ao Servio de Imigrao, ao SI, como era conhecido, em lugar de ficar esperando pelo resultado da entrevista.
No conseguia esconder sua ansiedade. O prosseguimento da Indstria, de sua Indstria, dependia da deciso do SI. Para se acalmar olhou pela janela e viu o edifcio que o av construra h trinta anos atrs.
O tempo parecia fazer eco ao seu estado de esprito; nuvens negras cobriam o cu, os troves e raios eram assustadores.
Surpreendeu-se ao ver sua imagem refletida navidraa. Usava um costume escuro, de muito bom gosto. Seus cabelos negros estavam penteados para trs e presos por uma fivela. Aos vinte e sete anos de idade tinha um rosto lindo, em especial quando sorria, coisa que alis no fazia muito ultimamente. Aparentava ser uma pessoa calma, segura de si, mas era a expresso do olhar que contava toda sua histria: revelava vulnerabilidade e dor.
Juntamente com o irmo Jerry havia sacrificado anos de sua vida pelo sucesso da Indstria. Conseguira. E agora aquilo.
Ela herdara a Indstria Conrad do pai, e propusera-se presidi-la, com o auxlio do irmo. Jerry tinha confiana na capacidade de Jlia, da a razo de oferecer-se para auxili-la.
Dois anos de trabalho insano, de pesquisas, com o emprego de novas ideias, frutificaram graas  dedicao de um homem, de um brilhante bioqumico de nome Aleksandr Berinski. Jerry conhecera-o enquanto viajava pela Europa, e convencera Jlia de que o homem resolveria todos os problemas da Indstria. Alek foi ento contratado, e seus novos planos logo revolucionaram a fbrica de tintas. Lev-lo para os Estados Unidos fora penoso, mas Jlia no se arrependera. Nem uma nica vez.
Aleksandr era originrio de um pequeno pas, Prushkin, um dia pertencente ao Imprio Sovitico. Conseguir um visto de imigrao para ele havia sido o maior risco que a Indstria Conrad enfrentara. E, no momento, o destino da companhia estava nas mos de um ridculo Servio de Imigrao, o SI.
Mais uma vez ela se censurava por no ter ido aos escritrios do SI. Fizera tudo para que o visto de Alek fosse renovado. Escrevera uma carta relatando a importncia dele na companhia e inclura documentos que comprovavam ser Aleksandr Berinski um homem de grande mrito e habilidade.
Jerry, advogado de fama, gastara semanas estudando o caso. E anexara todas as provas possveis a fim de conseguir a soluo desejada.
Jlia olhou para o relgio, impaciente. Desapontada com sua falta de controle, sentou-se  escrivaninha e ficou lendo.
O telefone tocou. Ela atendeu, certa de que seria o irmo.
	Jlia!  Era Jerry.  Estou telefonando do carro. Achei que voc gostaria de saber a resposta o mais depressa possvel.
	Sim, claro.
	Sinto muito te dizer, mas nada foi como espervamos. O SI recusou o pedido de extenso do visto de Alek.
Jlia achou que iria desmaiar.
	Quando dever ele deixar o pas?  perguntou.
	No fim do ms, que  quando termina o prazo do presente visto.
	Assim to depressa?
	Jerry, que vamos fazer?
	Falarei com voc logo que chegar. No se preocupe, j pensei num jeito.
Dentro de dez minutos Jerry entrava na sala de Jlia, acompanhado de Alek.
Embora Alek trabalhasse para a Indstria Conrad h quase dois anos j, Jlia falara com ele apenas uma meia dzia de vezes, e brevemente. Lia os relatrios e se entusiasmava com o progresso conseguido por intermdio do rapaz. Se ele pudesse continuar nos Estados Unidos, a Indstria Conrad voltaria ao seu antigo esplendor.
Ela e Jerry haviam tomado a si a quase impossvel tarefa de fazer o negcio da famlia ressurgir das cinzas. Com a chegada de Aleksandr, tudo ficara mais fcil.
E Jlia sabia tambm que a ausncia de Alek na fbrica seria um grande golpe para sua av Ruth, mulher de sade frgil, que piorava a olhos vistos.
Voc disse que havia um jeito, Jerry.
	Apenas um.
Jerry olhou para Aleksandr, ali ao lado, rapaz alto, atraente, de maneiras impecveis. Tinha olhos escuros e lia-se neles fora de carter.
	Um jeito, Jerry?  Jlia repetiu.  Diga-me qual  esse jeito.
	 melhor voc se sentar.
	Eu?  ela perguntou.
	Sim, e voc tambm, Aleksandr.
	Est acabando com minha pacincia, Jerry. O que quer que seja, fale logo.
	H apenas um meio legal, de meu conhecimento, para segurar Aleksandr no pas. E voc se casar com ele.
	Eu tinha muita esperana de te ver hoje, Jlia.
Sua av, Ruth Conrad, falou vagarosamente, estendendo-lhe a mo. Sentava-se na cama, os cabelos brancos enrodilhados num birote no alto da cabea. Estava plida, com os olhos encovados. Enfraquecia cada dia mais.
Jlia adorava a av. Visit-la consistia numa pausa reconfortante em seu trabalho.
	Que bom que voc veio!  a velha senhora exclamou.
Jlia passava por l quase diariamente, pois sabia que a av viveria pouco. Falava com ela, relatava o que acontecia na fbrica. Punha a av a par das inovaes de Alek. Juntas discutiam sobre o futuro e como a indstria de tintas progredira por causa da viso ampla de Alek.
	Queria falar com voc  Ruth sussurrou. Sua voz estava muito fraca.
	Descanse, vov. Conversaremos depois.
	No tenho muito tempo de vida, Jlia. Algumas semanas no mximo...
	Bobagem. Voc est cansada, isso vai passar.
	Quero falar sobre Roger.
	Agora no... Outro dia... Mais tarde.

	Pode no haver mais tarde para mim.
Roger Stanhope fora a grande paixo de Jlia.
	Por favor, vov... No...

	Ele te traiu, minha filha, e voc vem guardando esse ressentimento por anos. A dor est te matando como meu corao est me tirando a vida.
	Nem penso mais nele, vov  Jlia mentiu.
Ela tentava com desespero expulsar Roger de sua mente e de seu corao, mas tinha certeza de que isso no aconteceria at que conseguisse reconstruir o que ele destrura.
	A tristeza est te envenenando como uma serpente. Tenho observado isso acontecendo... e fui fraca demais para fazer o que eu desejava.
	Vov, por favor, Roger est fora de minha vida. No o vejo h mais de um ano. Por que vir com o assunto dele agora?
	Roger saiu de sua vida... apenas de certa maneira, no completamente.
Era verdade, Jlia concordou em silncio. Santo Deus, quando pensava em quanto o amara, no modo como confiara nele, ficava quase doente. Nunca mais permitiria que um homem se apoderasse de seu corao daquele jeito. Nunca mais daria a um homem o poder de manobr-la.
	Est na hora de voc perdo-lo, Jlia.
Jlia fechou os olhos e sacudiu a cabea. A av lhe pedia algo impossvel. Mulher nenhuma perdoaria as coisas que ele fizera. Roger lhe ensinara uma lio valiosa, e ela no voltaria as costas  humilhao que sofrera. Perdo-lo? Era humanamente impossvel! Preferia engolfar-se no trabalho, construir uma barreria contra o amor, do que perdoar Roger.
E fizera isso.
	Quero que voc volte a amar, Jlia  Ruth insistia.  No morrerei em paz sabendo que est to infeliz.
	Vov, como pode dizer isso? Jerry e eu estamos trabalhando duro para reconstruir a fbrica. J te contei o que Aleksandr tem feito. Como pode dizer que estou infeliz?
	Nada do que me diz significa muito..., no quando seu passado est aprisionado pela dor. Quero que voc se case, que encontra a felicidade.  a nica coisa que tem me conservado viva, esse meu desejo.
	Nunca poderei confiar em outro homem.
	Mas precisa, para seu bem.
	No posso, no depois do que Roger me fez. Voc tem de entender, vov.
	Espero ansiosamente pelo dia em que voc me apresentar o homem que ama. Queria que fosse Aleksandr...,  um homem to bom, to inteligente... Mas no posso esperar muito mais. Tenho poucos dias de vida.
Jlia ficou imvel. Amar de novo? Impossvel. E casar-se com Alek?
Pela segunda vez no mesmo dia lhe sugeriam a mesma coisa. Primeiro Jerry, e agora sua av.
Ruth adormecia. E Jlia lembrou-se do dia em que, criana ainda, durante uma tempestade, correra para o quarto da av e entrara na cama com ela. Encontrara segurana.
E essa sensao de segurana continuara por toda sua vida. Logo perderia sua ncora, a que a guiara e a amara. Pensando bem, Ruth nunca lhe pedira nada em troca. E agora Jlia no sabia como recusar o desejo da av sem parecer uma ingrata.
A resposta de Jlia, resposta essa que Aleksandr esperava desde a cena da vspera, consistiu numa grande surpresa. A verdade era que ele no conseguia entender aquele pas que aprendera a amar. Nem conseguia entender Jlia Conrad, mulher feita de gelo, de alma ferida. Alek vira isso no instante em que se encontraram pela primeira vez. Ainda no tinham tido muito contato, e suspeitava que a moa o evitava, preferindo comunicar-se atravs do irmo.
To logo Jlia voltou da casa da av, mandou cham-lo. Alek entrou no escritrio e encontrou-a sentada  escrivaninha.
	Sente-se, por favor  ela disse, apontando-lhe uma poltrona.  Espero no estar interrompendo seu trabalho.
	Nunca estou ocupado demais para atend-la, sita. Conrad.
	Acho que seria uma boa ideia conversarmos  ela sugeriu.
	Sobre meu trabalho?
	Conte-me o que tem feito.
Ele fez uma detalhada descrio de suas experincias, apesar de ter certeza de que Jlia estava a par de tudo, pois recebia seus relatrios semanais. Contou que lamentava no poder continuar trabalhando na Indstria para ver seu esforo frutificar. Sentia tambm deixar os Estados Unidos justamente quando seu pas estava em guerra.
	Voc precisa partir logo?
	Sim, no fim do ms.
	Aleksandr  ela pronunciou o nome dele com certa familiaridade.  Temos um problema... como sabe. Estamos bem perto de perdermos tudo. No posso permitir que isso acontea e Jerry apresentou uma soluo.
Estaria ela pensando no casamento?, Alek se perguntou.
	Refleti um pouco sobre a ideia de Jerry  Jlia prosseguiu.  Parece-me que o casamento  nossa nica soluo.
Naturalmente voc ser bem compensado por sua... contribuio  Indstria Conrad. Dobraremos seu salrio.  claro que ser um casamento de fachada e, quando voc terminar com o trabalho, pediremos o divrcio. Se concordar com as condies, nos casaremos logo.
Alek franziu a testa, no dando importncia alguma  oferta em dinheiro. Seu salrio j era bastante alto.
	Sei que h vrios membros de sua famlia ainda em Prushkin  Jlia acrescentou, com cuidado.  Podemos ajud-los a imigrar para os Estados Unidos, se nos casarmos.  o que voc deseja, no?
	Minha irm  viva e mora com minha me.
Alek teve um desejo quase incontrolvel de abra-la, mas controlou-se.
Durante dois anos ele observara o comportamento de Jlia Conrad. Parecia ser uma mulher fria, distante, mas sem dvida lindssima. Usava uma mscara, e usava-a bem, porm ele adivinhava o que havia por baixo dessa mscara.
Em geral Jlia era arrogante e s vezes sarcstica. Mas no era capaz de esconder seu lado suave. Importava-se com os empregados e perdoava-lhes as faltas com frequncia.
Mas, casamento?
Alek suspirou. Sua religio no permitia o divrcio. E ele recusava encarar sua vida e sua felicidade como um negcio.
	Fale alguma coisa, Alek  Jlia pediu.
	H muito a se considerar antes de entrarmos num acordo.
	Claro  ela concordou.
	Seu dinheiro no me interessa.
	Mesmo em se tratando de sua famlia?  Jlia manifestou surpresa.
	Mesmo em se tratando de minha famlia.
Jlia notou logo que ela no era a nica pessoa orgulhosa no caso. Alek tambm possua seu orgulho. E tinha um preo em mente.
	Ento, o que voc quer?
	No sei como dizer  ele respondeu, com sinceridade.
	Acha desprezvel a ideia de casamento?
	No. Voc  muito linda!
	Ento, o que h?
	No quero dinheiro.
	Se no quer dinheiro, ento o que voc quer? Uma porcentagem de minhas aes? Diga-me!
	Vocs, americanos, vem o casamento com diferentes olhos dos nossos, em Prushkin. No meu pas, quando nos casamos,  para o resto da vida.
	Mas no estamos em Prushkin, estamos nos Estados Unidos.
	Americanos tratam casamento como roupa descartvel.
Quando fica suja, jogam fora. Reconheo que moro em seu pas agora, mas em meu ntimo acredito na tradio. Se nos casarmos, e desejo muito isso, no haver divrcio.  Alek ignorou a fria do olhar dela e prosseguiu:  Ambos ganharemos com esse arranjo, eu continuarei neste pas e voc ter o que deseja. Mas h um preo para isso. O casamento ser real, ou no haver casamento.
	Isso quer dizer que voc no deseja apenas os ovos de ouro, quer tambm a galinha?
	A galinha? No me interessam os ovos de ouro, e nem a galinha, quero apenas voc.
	 o que pensei  Jlia murmurou, com voz rouca.
O telefone tocou. Ela atendeu e disse:
	Dr. Silverman? Aqui  Jlia Conrad. Entendo. O senhor quer transferir minha av para o hospital? Tudo bem. Informarei meu irmo e nos encontraremos o mais depressa que pudermos.
	Sua av est doente?  Alek perguntou.
	Est... Eu preciso sair. No temos mais nada a discutir.
	No concordo com suas condies, recuso ficar presa ao tipo de casamento que voc sugere.
	Sinto muito. Teramos filhos saudveis.
	Filhos?!  Jlia repetiu.
	Estimo as melhoras de sua av  Alek disse.
	Obrigada.
Jlia saiu da sala e ele admirou o modo elegante como a moa caminhava. Desejou as melhoras da velha senhora mas desejou muito mais a felicidade de Jlia.
Sabendo que sua permanncia nos Estados Unidos estava no fim, Alek trabalhava muito, sentindo como obrigao moral terminar uma srie de experincias j iniciadas.
Ele planejara ficar no laboratrio at tarde. A um dado momento ouviu um barulho na porta. Ergueu a cabea e deparou com Jlia Conrad. Estava plida, tinha olheiras profundas.
	Jlia!  ele exclamou.  O que houve? Alguma coisa com sua av?
	Ela teve outro enfarte.
	Sinto muito.
	Eu... reconsiderei os fatos, sr. Berinski. Me casarei aceitando todas as suas condies.

CAPTULO II

No quero uma cerimnia aparatosa - Jlia insistia com o irmo.  Como poderamos ter tempo para isso?
	Jlia, voc no est me ouvindo!
	Estou ouvindo, sim. Apenas no me agrada o que estou ouvindo.
	No h nada de exagero numa recepo no Four Seasons.
- Mas uma cerimnia com convidados a rigor  algo ridculo, Jerry. Essa farsa est indo longe demais. Concordo que o casamento seja a melhor soluo, mas isso no quer dizer que eu seja forada a aguentar o arremedo de um casamento formal.
	Temos que nos esforar para que tudo parea o mais normal possvel. Vocs dois devem agir como se estivessem apaixonados. Precisamos convencer o pessoal da Imigrao.
E Alek vai morar em seu apartamento, voc queira ou no.
Isso perturbava Jlia mais que qualquer outra coisa. Seu apartamento era o porto seguro, o nico lugar onde podia ser ela mesma.
	Mas, por que morar comigo?
	Por qu?  Jerry gritou.  Santo Deus, Jlia, fiz tudo da maneira a mais simples possvel. Alek no  o problema, o problema  voc. O que no entendo  por que est fazendo tanto barulho quando ns  que ganharemos com esse arranjo.
	Est transformando Alek num mrtir que se sacrifica por mim, Jerry.
	Vamos falar claro, Jlia. A Indstria Conrad ganha muito mais com essa unio que Alek.
	Ofereci um pagamento rgio a ele.
	E insultou-o. O homem tem orgulho, no se vende por dinheiro.
	Nesse caso, por que concordou com a proposta?
	Sei l!  Jerry sacudiu os ombros.
	Ele quer ajudar a famlia.  Jlia lembrou-se de Alek ter mencionado uma irm viva e a me.  Como filho mais velho, sente-se responsvel.
	Estou mais que convencido de que Alek no se interessa por dinheiro. Quando ele leu o acordo pr-nupcial, insistiu em no querer interesse algum na companhia. Ns poderemos fazer uma fortuna por causa de um homem que no deseja sua parte no negcio.
	Concordei com o casamento  Jlia esclareceu , mas no com uma cerimnia ostensiva. Queria ir ao cartrio e resolver nosso caso l.

	Jlia, no seja difcil! J te falei, temos de fazer com que tudo parea o mais normal possvel, por razes bvias.
	OK, ento ele pode morar comigo. Pacincia!
Para Jlia, tratava-se da concesso mxima. Achou que no havia outro remdio. Alek insistira desde o incio que o casamento fosse real. Estava claro que queria dormir com ela, fazer amor e, no devido tempo, engravid-la. Mas Jlia no podia aceitar essas exigncias. Sentia-se incapaz de amar; sua habilidade estava morta, destruda pela traio de Roger.
Todavia, ao mesmo tempo em que admirava Alek, ficava nervosa na presena dele, como se estivesse nua e exposta.
	Os agentes do Servio de Imigrao vo fazer perguntas  Jerry prosseguiu.  Temos de fornecer provas de que a razo de Alek consentir no casamento foi nada mais nem menos que o amor.
- E uma festa no salo de Four Seasons os convencer?
	Acho que sim.  Jerry suspirou.  E agora sugiro que voc v comprar um traje de noiva. Eu cuidarei do resto.
	Mas, Jerry, que loucura!  A ideia de se vestir de branco, como se fosse uma noiva apaixonada, a horrorizava.  No posso continuar com essa comdia.
	Mas concordou, Jlia.
	Com o casamento, sim. Mas no com esse... circo.
	E de um circo que necessitamos para enganar o SI. Acredite em mim, minha irm, seu casamento vai ser investigado.
O interfone tocou. Virgnia, a eficiente secretria de Jlia informou que o sr. Berinski desejava v-la.
	Mande-o entrar.
Em menos de dois minutos Alek estava na sala.
	Boa tarde  ele cumprimentou-os e no se mostrou nada embaraado com a m acolhida.
	Eu ultimava com Jlia os preparativos da cerimnia - Jerry explicou.
 E eu gostaria de ficar um pouco sozinho com minha noiva  Alek pediu. Jerry retirou-se.
	Quer falar comigo?  ela indagou.
	Est com medo?
	Todas as noivas ficam nervosas nas vsperas do casa mento.
	Como vai sua av?
	Melhor, acho.
	Gostaria de mudar de ideia sobre o que foi decidido?
 Alek arriscou perguntar.
Sua chance estava l, Jlia admitiu. Tudo o que tinha a fazer era confessar que mentira. Abriu a boca para se explicar, mas no conseguiu emitir um som sequer. As palavras recusaram vir. Nesse meio tempo Alek pousou as mos nos ombros dela e beijou-lhe a nuca.
Jlia ficou gelada. Era a primeira vez que um homem a tocava depois de Roger. No conseguia respirar e nem se mover. Alek pareceu no notar nada. Abraou-a em seguida e beijou-a na boca.
Jlia no podia negar a si mesma que se agradara do contato, que o beijo fora delicioso, e quase a sufocara.
Ia ser a esposa de Alek, e concluiu logo que ele no toleraria um casamento sem amor, sem sexo.
Santo Deus, o que poderia ela fazer?
Jlia foi comprar o vestido de noiva. A loja estava repleta.
	Al  a vendedora cumprimentou-a.
	Al  Jlia respondeu enquanto examinava um traje bege plido, pendurado no cabide.
	Posso ajud-la?
	Quero um vestido de noiva para esta sexta-feira.
	O casamento ser na sexta-feira mesmo?  a moa perguntou.
	Sim. Reconheo que no h muito tempo. Trata-se de uma dessas decises repentinas.
	No se preocupe. Esses casamentos apressados so em geral os mais romnticos.
	Prefiro um vestido bem simples.
	Simples?  A vendedora repetiu.
	Quanto mais simples, melhor.
	Sinto muito, mas no temos vestidos simples nesta loja.
Era o que Jlia temia.
	Se for simples mas elegante, posso lhe mostrar alguns  a vendedora corrigiu o que dissera antes.  Escolha o estilo que prefere nessa coleo a a seu lado e depois experimente um.
Rapidamente, pois estava com pressa de ir ao hospital visitar a av, Jlia separou dois vestidos.
	Vou provar estes  disse.
Ela vestiu o primeiro. Era simples e elegante, como desejava.
	No  a vendedora opinou.  No  para a senhora.
	Achei...
	No : a vendedora insistiu.  Nem se d ao trabalho de experimentar o outro.
	Por favor, senhorita, no tenho todo o tempo do mundo.
	O vestido  a coisa mais importante do casamento. Qualquer noiva merece ser bonita nesse dia.
Jlia teve vontade de chorar. Toda noiva merecia muito mais do que do que ser bonita, merecia se casar por amor, e com um homem que a amasse.
	Um momento  a vendedora disse de repente.
Ela saiu da sala de provas e voltou alguns minutos mais tarde com um lindo vestido de seda, bordado de lantejoulas e prolas. Raramente Jlia vira coisa to linda.
	Experimente  a moa sugeriu.
	No... No quero!
	Bobagem. Este vestido foi desenhado para algum com o seu corpo. E perfeito, chegou esta tarde.
	No sei...  Jlia hesitava.
Achava o vestido lindssimo, o modelo que uma noiva apaixonada escolheria, e que ela usaria para Roger, antes de descobrir a traio do noivo. Antes de ter descoberto como fora tola.
Por insistncia da vendedora Jlia ps o vestido. Olhou-se no espelho e surpreendeu-se com a linda jovem cuja imagem surgiu refletida  sua frente.
	Perfeito!  a vendedora exclamou.
	Vou lev-lo  Jlia declarou enfim, embora se considerasse uma idiota.
	Tinha certeza que a senhora ia comprar o vestido.
Da loja Jlia foi ao hospital. Sobre a mesa da recepo havia um lindo arranjo de flores vermelhas, azuis e amarelas, dentro de um chapu de palha. Logo a enfermeira chefe deu permisso para Jlia entrar no quarto.
	Boa tarde  Jlia sussurrou, sem saber ao certo se a av estava dormindo ou acordada.
A velha senhora abriu os olhos lentamente.
	Jlia, minha querida,  to bom ver voc! Sente-se.

	Como est se sentindo, vov?
	Isso no  importante. Fale-me de Alek. Rezei tanto para que voc comeasse a amar de novo!
	Vamos nos casar nesta sexta-feira  tarde, vov.
	Sexta-feira...  bom que no tenham um noivado longo.
Quero te ver casada e duvido que viverei muito.
	Vov, voc vai ficar entre ns por anos e anos. Atrasei para chegar ao hospital porque me demorei escolhendo o vestido de noiva.
	Voc e Alek viro me ver depois da cerimnia, no?
	Claro, vov.
	Alek me mandou flores. Que rapaz maravilhoso! Voc viu o arranjo no chapu, na recepo? A enfermeira trouxe para eu apreciar!  noite as flores no podem ficar no quarto.
	Quem mandou, vov?  Jlia achou que no havia entendido bem.
	O seu Alek. Voc soube escolher o marido, querida.
Jlia evitara pensar nele o dia todo, em particular tentara no pensar no beijo.
	Fale-me sobre seu romance, querida  a av pediu.  Alek  um homem maravilhoso, diferente; s em ouvir falar nele me d prazer.
	Ah...  Jlia hesitou, no sabendo o que dizer.  Tudo aconteceu to depressa..., quase da noite para o dia.
	Assim imaginei. Adoro histrias de amor.
	O visto de Alek para ficar nos Estados Unidos vai expirar em algumas semanas.
	Ah, esqueci-me disso, querida.
	Ele precisava voltar a Prushkin.
	Foi quando voc se convenceu de que no podia deix-lo partir, Jlia?
	Foi. Jamais havia pensado que Alek fosse to importante para a Indstria. Jerry fez todo o possvel para renovar o visto consular, mas no conseguiu nada. Ento...
De sbito ela se deu conta de como sua romntica av ficaria desapontada se soubesse a verdadeira razo do casamento. Por isso no entrou em detalhes.
	Jlia, minha querida.  A velha senhora apertou a mo da neta.  Sempre achei que um dia voc abriria seu corao para o amor mais uma vez. Porm, para isso, seria preciso um homem muito digno, como Alek. Seja feliz, minha filha.
Prometa-me que no me deixar partir antes de te ver feliz.
Jlia no absorvera bem as palavras de Ruth, no faziam sentido para ela. Abrir meu corao para o amor mais uma vez?
Por longo tempo ficou ao lado da av, mergulhada na solido que sempre sentia quando passava horas com Ruth.
	Jlia!  O som do nome dela, pronunciado com sotaque estrangeiro, chamou-lhe a ateno de maneira especial. Virou a cabea e deparou com Alek na porta do quarto, um vulto enorme cobrindo toda a entrada.
Jlia levantou-se, ressentindo a intruso naquele seu momento de privacidade. Foi ao encontro dele, no querendo interromper o repouso da av.
	Que veio fazer aqui?  perguntou, os dois j no corredor.
Alek esboou um sorriso brejeiro e respondeu:
	Vim te ver. Temos muito a decidir.
Ele tomou-lhe a mo e foram na direo do elevador.
	Deixei os arranjos do casamento por conta de Jerry  Jlia explicou.  Ele cuidar de tudo. Portanto, no temos nada a conversar.
Alek ficou furioso. Via-se pelo modo como retesou o corpo, pelo rictos da boca, pelo olhar.
	Voc me quer, Jlia, precisa de mim. Me pergunto quanto tempo vai demorar para se compenetrar disso.
A arrogncia do homem ia alm da crtica. Jlia fitou-o, desejando faz-lo engolir o que ele dissera. No necessitava de ningum, muito menos de um homem e de forma alguma de um marido. Quis declarar em altos brados essa verdade, mas no conseguiu.
Segundos se passaram e uma chama de dio crescia entre os dois.
	Voc precisa de mim  Alek insistiu.
	Est redondamente enganado. A Indstria Conrad precisa de voc, no eu.
Eles se encararam e pareceu que nenhum dos dois sabia o que dizer ou fazer. Jerry j havia mencionado  irm como Alek era orgulhoso e agora Jlia constatava isso com os prprios olhos.
Ele afastou-se e j estava entrando no elevador quando ela chamou-o. Precisava falar alguma coisa. Ambos iriam sofrer muito se esse atrito continuasse. E, no caso de existir uma possibilidade de entendimento, a iniciativa deveria partir dela.
	Eu no quis dizer que no precisava de voc, Alek.
	Mas disse!
	Quis apenas dizer que um precisava do outro.
Sorrindo, ele voltou. Por instantes no falou nada mas logo baixou a cabea e beijou-a na boca. Tal qual anteriormente, esse toque para Jlia foi suave como o roar de uma pluma, leve como a brisa, deixando-a na dvida se fora beijada ou no.
	Por que isso agora?  perguntou, intrigada.
Alek sorria abertamente. E ela achou que valera a pena esperar por aquele sorriso.
Por qu? Porque, minha futura esposa, voc mereceu esse beijo.  Ele afastou-lhe os cabelos da testa.  E porque  acrescentou, com um ar brincalho  eu tambm mereci.
CAPITULO III

A cerimnia do casamento foi um pesadelo para L.Jlia. Ao ter de pronunciar os votos matrimoniais sentiu um n na garganta e mal pde falar. O mesmo no se deu com Alek que se expressou com voz alta e firme, sem a mnima hesitao.
Amor e carinho!
A conscincia de Jlia se revoltou. Ela no tinha inteno de amar Alek. Na verdade, no queria amar homem nenhum porque o amor possua o poder de machuc-la, de destru-la. E ela lutara muito para sufocar essa emoo, para bani-la de sua vida. Podia viver sem amor. O amor era um sentimento suprfluo, desnecessrio, doloroso quando abusado, e seu corao terno ainda no se recuperara totalmente.
Assinar os documentos foi ainda pior do que aguentar a farsa da cerimnia. Sua mo tremia ao escrever o prprio nome na certido de casamento. Com os olhos cheios de lgrimas olhou para o documento oficial, ciente da mentira em que iria viver.
Jerry, Virgnia e o ministro pareciam indiferentes ao seu sofrimento. E ela ignorava o que Alek estava pensando.
 Possa esta unio durar muito e produzir frutos  o ministro dizia a Alek.
Jlia no ousava olhar para o marido, receosa de que ele lesse seus pensamentos.
Durar muito e produzir frutos. Essas palavras ecoavam em sua mente. Teve medo de cair em pranto, pois a decepo que sofria era bem maior do que imaginara.
	Vamos recepcionar os convidados?  Jerry sugeriu a Alek, apontando para o salo.
Jlia aproveitou a oportunidade para se afastar um pouco.
A recepo teve lugar numa enorme sala do hotel onde se realizara a cerimnia do casamento. O bufe foi servido em travessas de prata e o champanhe em taas de cristal.
Jlia surpreendeu-se com a quantidade de pessoas presentes, considerando-se o fato de o convite ter sido enviado quase s vsperas do evento. A maioria era composta de negociantes, porm vrios amigos da famlia compareceram, os que restaram aps a morte de seu pai.
Alek ficou o tempo todo ao lado dela, sorrindo e recebendo os convidados. Colocou os braos em torno dos ombros de Jlia, com muita familiaridade.
- J te disse como est linda?  ele sussurrou-lhe ao ouvido.
Alek no conseguia desviar os olhos da futura esposa desde o incio da cerimnia. E Jlia comeou a pensar que teria sido muito melhor se houvesse escolhido um vestido mais simples.
No momento em que se viu no espelho, antes do casamento, arrependeu-se de ter comprado uma roupa to linda. At Jerry ficara atnito ao v-la.
	No pode ao menos fingir que me ama?  Alek pediu.  S por algumas horas? Sorria, meu amor.
Ela obedeceu.
	Assim est melhor  ele murmurou.
	Quando podemos ir embora?
	Est ansiosa para ficar sozinha comigo?  Alek sorriu com ironia.  Mas no podemos deixar nossas visitas.  Jlia corou violentamente, o que o divertiu.  Quer que eu v fazer um prato para voc?
	No, obrigada.
Jlia sentiu que suas pernas fraquejavam. Por obrigao mais do que por desejo bebeu uma taa de champanhe. A bebida a deixou atordoada quase de imediato.
A culpa era do vestido, Jlia preferiu admitir. Queria despir aquela roupa porque a fazia experimentar sensaes para as quais no tinha direito. Com Alek a seu lado sentia-se linda, desejada e amada, quando no merecia ou no queria aquilo. Aceitara o casamento por razes de convenincia e no lhe agradava usar Alek no dando amor em retorno.
At se ver diante do ministro o contrato no passara de palavras ocas. E no esperava que as poucas palavras pronunciadas por homem de Deus fossem to poderosas.
	Jerry!  Jlia agarrou o brao do irmo com ambas as mos.  Preciso sair daqui...
Jerry com certeza percebeu o desespero dela, pois sussurrou qualquer coisa a Alek, que a tirou da sala de recepo imediatamente.
	Jerry vai apresentar nossas desculpas  ele disse a Jlia.
	Sinto muito, mas no sei o que est acontecendo comigo.
	Acha que vai desmaiar?
	Estou bem agora.
	Mas no nos beijamos como requer a praxe  Alek queixou-se.
Jlia fingiu no saber do que ele falava. De fato, quando chegara a hora do noivo beijar a noiva, ela oferecera-lhe a face em vez dos lbios. Alek ficara desapontado, e Jerry manifestara sua desaprovao.
- Sente-se melhor agora?  Alek perguntou.
	Estou bem.  Ela resolveu mentir, mas podia ter dado uma lista de razes para no estar se sentindo bem.
	Sendo assim, vou beijar minha noiva como se deve  Alek disse.
O primeiro instinto de Jlia foi rejeit-lo. Mas logo achou que o beijo era um preo bem baixo a pagar para acalmar sua conscincia. Ademais, o toque dos lbios de Alek sempre fora terno...
Ela estava encostada na parede e Alek enlaou-lhe a cintura com os braos. Automaticamente, Jlia apoiou as mos no peito dele. Por longo tempo Alek beijou-a, saboreando a delcia de t-la nos braos.
Ela fechou os olhos. Sentia o aroma da colnia masculina, as batidas do corao de Alek.
E o beijo foi igual aos demais, uma carcia de ptalas de rosas. Porm ela gemeu quando, com a lngua, Alek contornou-lhe a boca, mordendo com suavidade o lbio inferior.
Jlia dava-se por satisfeita sendo Alek quem agia, sem sua participao. Contudo, aps alguns minutos, ele insistiu:
	Querida, beije-me tambm.
Timidamente ela abriu os lbios e Alek gemeu, como se lhe tivesse sido dada uma grande prova de amor. Abraou-a com mais carinho e, por estranho que pudesse parecer, Jlia chegou-se mais perto. Mesmo atravs das camadas e camadas de seda e tafet, ela ficou consciente do desejo que dominava o marido.
Contra tudo o que a bom senso lhe dizia, Jlia suspirou de prazer ante a sensao que experimentava. De braos dados com o medo surgiu uma excitao que lhe percorreu as veias, a melodia do desejo, to velha quanto o tempo, uma cano que traduzia a necessidade fsica, o anseio sexual. Isso a tornava ousada e impaciente. Inclinou a cabea e recebeu com prazer a explorao da boca feita pela lngua de Alek que, com movimentos quentes e famintos, insaciveis, tocava-a da maneira a mais sensual possvel. Com as mos ela revolvia os escuros cabelos de Alek. Seu corpo, por tanto tempo intocado, estava prestes a explodir.
Um som vindo da porta chamou a ateno dos dois. Com relutncia, Jlia abriu os olhos devagar e viu um grupo de pessoas em p, observando-os.
Jerry l estava tambm, sorrindo abertamente. Alek, sem esconder a irritao, largou-a. Blasfemou qualquer coisa em seu idioma.
	Preciso ir para casa me trocar  Jlia disse, saindo
depressa da sala.
Sentia-se como se tivesse cado num precipcio na escurido, sem saber onde iria parar. O que comeara com um beijo, transformara-se em algo mais profundo. Ela tentara acalmar a conscincia; em vez disso, acrescentara outro item na lista de seus pecados. Levara Alek a crer que podia conseguir muito mais.
Em seu apartamento ela trocou de roupa e vinte minutos mais tarde reapareceu com um vestido vermelho que encontrara no fundo do armrio.
Alek esperava-a no hall, andando impacientemente de um lado para o outro.
	Desculpe-me por ter demorado tanto, Alek.
	Tudo bem  ele respondeu, beijando-a nos lbios ainda inchados pelos beijos anteriores.
	Eu... eu prometi  minha av passar pelo hospital depois da recepo  Jlia declarou nervosamente.
	Vamos ento.
No hospital, ela correu para abraar a av que parecia estar muito mal. O que a segurava neste mundo era a neta.
Jlia adorava-a e reconhecia que fora Ruth quem a ajudara a vencer a decepo que sofrera com Roger e o desespero pela morte do pai. No fosse por ela, poderia ter acabado num hospital de doentes mentais.
Emoes h muito enterradas e ignoradas surgiam  tona inesperadamente. O beijo de Alek abrira a porta de um aglomerado de necessidades que ela julgara perdidas para sempre.
Estava casada com um homem que no amava e que no a amava. Para complicar tudo, a av estava  morte. E s lhe restava um casamento sem amor, e uma desesperadora solido.
Ela mal podia segurar as lgrimas.
	Chorando?  Ruth perguntou.  Deve ser de felicidade.
Hoje  o dia mais feliz de sua vida, no , querida?
Alek fez Jlia sentar-se numa cadeira e ficou por trs, com as mos nos ombros dela.
	Lembro-me do dia em que me casei com Louis  a velha senhora disse com um sorriso. - Eu me sentia apavorada.
	Apavorada, vov?
	Sim, no tinha muita certeza de estar agindo acertadamente. Havia muito poucos divrcios naqueles dias e, quando uma mulher se casava com o homem errado, ficava condenada a uma vida miservel.
	Mas voc j o conhecia h muito tempo, vov.
	H muito tempo?   Ruth repetiu.   verdade, mas s samos juntos antes do casamento uma meia dzia de vezes.
	Sempre achei que voc conhecia vov muito bem.
	No nego que o via de vez em quando, pois Louis trabalhava para meu pai, mas no com tanta frequncia como voc pensa.
	E quando descobriu que o amava?
	Louis deixou de trabalhar na fbrica e papai ficou furioso com ele. Ambos eram muito temperamentais. Louis iniciou um negcio competitivo ao de nossa famlia. Mas veio a guerra e ele alistou-se. Antes de partir foi  nossa casa. Achei que havia ido se despedir de papai e nem sonhava que eu era a razo da visita. Ele pegou minha mo e beijou-a. Nesse momento me apaixonei por Louis.
	Quanto tempo ele ficou longe, servindo na guerra?  Jlia quis saber.
	Trs anos. Mas eu recebia cartas sempre. Quando Louis voltou papai insistiu em me acompanhar ao primeiro encontro.
	E o que aconteceu, vov?

	Papai ofereceu a ele o antigo emprego. Pouco tempo depois nos casamos.
	Que histria linda, vov.
	Tivemos uma vida maravilhosa, melhor do que jamais sonhara. E vocs, meus filhos, tero uma vida boa tambm.
Alek, seja paciente com meu cordeirinho. Ela tem um corao magoado e tudo de que necessita  amor e pacincia.
	Vov!
	V embora, Jlia. No pretende passar sua noite de np cias aqui comigo, no ?
	Descanse ento, vov. Telefonarei amanh cedo.
	Foi um grande prazer passar esse tempo com a senhora  Alek disse, beijando a mo de Ruth.  Eu teria gostado muito do seu Louis, era um homem de raro valor.
Ruth sorriu e explicou:
	Muitas pessoas acharam que Louis se casara por dinheiro, mas ns estvamos terrivelmente apaixonados. Agora vo, meus filhos. Essa  sua noite de npcias.
Para Jlia, as palavras de Ruth soaram como um suplcio chins. Sua av era uma mulher honrada, porm ela no herdara a mesma fora, a mesma honestidade. Planejara enganar Alek, e muito breve ele descobriria exatamente o quanto fora ludibriado.
Jlia surpreendera-o. De incio Alek nao dera muito crdito quela mulher, agora sua esposa. Durante dois anos a observara, espantado com sua tenacidade. Jerry lhe contara pouco acerca dos problemas financeiros da firma. Ouvia alguma coisa ali, outra l, porm ningum lhe explicara com detalhes o motivo da runa financeira da firma. Pelo que entendera, a Indstria Conrad estivera muito perto de introduzir no mercado uma tinta para paredes externas, de longa durabilidade, com vinte e cinco anos de garantia. A companhia estava preparada para a expanso, confiante no sucesso. Foi ento que uma srie de desastres aconteceu.
Exatamente essa parte ficara mal explicada para Alek. Ele ouvira falar algo sobre roubo tambm. Porm o pior de tudo foi o incndio que destruiu o laboratrio e os armazns. Muito mais tarde soube-se que o incndio havia sido premeditado, um ato criminoso.
A suspeita recaiu sobre um empregado, mas no houve provas suficientes para incrimin-lo. Pouco tempo depois da tragdia o pai de Jerry e Jlia morreu e esta assumiu a presidncia da Indstria. Um ano mais tarde Alek foi trazido de Prushkin e ele comeou a trabalhar arduamente para desenvolver as prprias ideias sobre tintas.
	Voc est muito quieto  Jlia comentou, interrompendo o curso de pensamentos do marido.
Ela movia-se nervosamente no assento do carro e isso no passou despercebido a Alek. Ele no era homem de meias medidas, mas entendia a agitao de Jlia. Teria pacincia embora seu desejo fosse lev-la para a cama assim que chegassem no apartamento.
	Onde voc quer jantar?  ele perguntou.
	Jantar? Eu... no sei.
	Voc decide, Jlia.
	E se fssemos ao meu... nosso apartamento? Podemos encomendar alguma coisa para ser levada em casa.
	Encomendar alguma coisa?  ele repetiu.
	 que eu no sei cozinhar muito bem e...
	OK, mas eu sou excelente na cozinha.
Alek teve vontade de acrescentar: "E na cama tambm." Porm no quis embara-la. Provaria isso a Jlia muito breve.
Assim que chegaram ela perguntou, insistindo numa confirmao:
	Quer mesmo preparar o jantar?
	Claro!
Alek examinou o apartamento e gostou muito de tudo. No havia nada assim to luxuoso em sua terra natal. A sala de visitas, longa e estreita, tinha janelas em toda sua extenso. A sala de jantar e a cozinha eram compactas, pequenas, como se a importncia das mesmas fosse mnima.
	Aceita um copo de vinho branco?  Jlia perguntou.
	Sim, por favor.
Enquanto ela se ocupava do vinho, Alek ficou examinando o novo lar. Um corredor conduzia a dois dormitrios. No maior havia um cama de casal com um acolchoado azul de plumas e dzias de travesseiros. Um aroma de violetas permeava o ar. O segundo dormitrio era bem menor.
Ele voltou para a cozinha e comeou a tomar o vinho. Os olhos de Jlia, escuros e redondos, suplicavam algo. Mas o que, Alek no sabia. Porm de uma coisa estava certo: no esperaria, muito para fazer amor com ela.
Jlia sentia-se tal qual a raposa na hora de ser solta para a caada. Logo estaria presa em uma emboscada.
Quanto a Alek, no sonhava que a nova esposa no tinha inteno de dormir com ele. Tencionara ser bondoso, paciente e gentil, mas Jlia no podia esperar que sua generosidade se prolongasse por muitas horas.
Ele cantarolava enquanto cozinhava.
	Achei uns pedaos de frango cozido na geladeira. Que tal eu preparar uma salada com maionese?  Jlia sugeriu.
 Mas, quando voc aprendeu a cozinhar?
	Quando ainda menino. Minha me insistiu e eu gosto de cozinha.
	Agradea  sua me por mim.
	Voc pode fazer isso pessoalmente um dia. Estou providenciando a vinda dela para c.
Jlia procurava um assunto para conversar, com a finalidade de atrasar o inevitvel momento de irem para a cama. Sua primeira ideia fora embebed-lo. Ela tomara dois copos de vinho e j se sentia tonta. Alek bebera a mesma quantidade e estava sbrio como quando chegaram ao apartamento.
A segunda ideia de Jlia foi apelar para o bom senso dele. Precisava faz-lo entender que no o amava.
Mas... e o beijo? Santo Deus, ela devia estar louca ao permitir que Alek a beijasse daquele jeito. No fizera nada para resistir, muito pelo contrrio, o encorajara, fazendo-o acreditar que aceitara com prazer o contato ntimo.
E agora Alek esperava mais, muito mais, e ela no podia, no podia permitir... aquilo. Estava furiosa consigo mesma pelo prazer que tivera nos braos dele. Fora como se estivesse procurando um meio de provar a si mesma de que era mulher cem por cento, de mostrar a ele e aos outros que era mais feminina do que se podia imaginar por seu procedimento dos ltimos tempos.
E essa criancice sua complicara tudo.
	Mais vinho?  ela perguntou.
	No mais para mim, obrigado.
	Eu arrumo a mesa  Jlia se prontificou.
Logo Alek descobriria, logo saberia como ela era falsa. Falsa, no, covarde!
Com mos trmulas Jlia ps os pratos, os copos e os talheres sobre mesa e voltou para a cozinha.
Alek levava a comida para a sala de jantar e disse:
	Jlia, meu amor, venha.
	No sou seu amor!
Imperturbvel, ele retrucou:
	Ainda no, talvez, mas logo. Venha, vamos comer agora.
	Que coisas deliciosas voc preparou, Alek!

	Minha irm  excelente cozinheira  ele declarou com naturalidade.  Se voc concordar, ela poder cozinhar para ns assim que chegar de Prushkin.
	 claro que concordo.  Jlia queria muito agradar a famlia dele.
	Est nervosa?  Alek perguntou, depois de provar os vrios pratos.
	Estou. 
	 compreensvel. Mas no se preocupe, meu tesouro, serei muito paciente com voc.
O corao dela acelerou.
	Eu te admiro, Jlia. No  qualquer mulher que aceitaria as condies de nosso casamento.  to valente quanto bonita.
Sinto-me feliz por ter me casado com uma mulher excepcional como voc.

CAPITULO IV

Jlia ergueu-se da mesa, deixando Alek atnito. Seus olhos escuros estavam cheios de lgrimas.
	Jlia?
	No posso fazer isso. No posso... partilhar de sua cama, no podemos viver como um casal normal. No posso... fazer isso. Menti... Tudo foi uma mentira. Sinto muito, Alek, sinto mesmo.
	Voc concordou com minhas condies  ele a fez lembrar; sem rancor, contudo.
Jlia estava plida e tremia. Alek teve pena dela e a abraaria se tivesse certeza de que seus braos lhe proporcionariam algum conforto. Podia perceber que qualquer contato seu no era bem-vindo.
	Eu estava extenuada. Eu... ignorava o que fazia. Tudo aconteceu to depressa...
Alek sacudiu a cabea e protestou:
	Mas voc sabia...
	Mudei de ideia. Compreensvel, dado s circunstncias.
	No precisava aceitar o casamento, mas aceitou. Quis nossa unio, e recusa admitir at para voc mesma.
	Eu... eu estava emocionalmente perturbada. Jerry achava que o casamento era o nico meio de te conservar nos Estados Unidos. Minha av est morrendo e gosta de voc, acredita em voc, e achei que era a coisa certa a ser feita.
	E no te parece certa agora?  ele perguntou, terrivelmente frustrado.
	No, longe disso. E ser que voc tem to pouco orgulho, Alek, a ponto de me prender a um contrato realizado quando eu no estava em condies de refletir?
	Orgulho!  Alek repetiu.  Sim, sou um homem orgulhoso. Mas, e voc o que , Jlia? Tem to pouca honestidade que renega um contrato feito de boa f, quanto a mim? E pretende que eu aceite suas desculpas esfarrapadas?
Jlia ficou rubra de vergonha. E Alek prosseguiu:
	Cumpri minha parte no contrato. Acha errado eu esperar que voc cumpra a sua?
	Pede demais, Alek.
	Tudo o que peo  que seja minha esposa, que divida sua vida comigo e que ponha meus filhos no mundo.
	Voc tem o direito de ficar zangado, tem todo o direito de me amaldioar, mas no posso ser sua esposa do jeito que deseja.
 tarde demais para mudar de ideia, Jlia. Estamos casados. Voc pronunciou os votos e assinou um documento. No h volta. Sugiro que esquea essa bobagem e termine de jantar.
	Por favor, procure entender, Alek. Isso no est sendo fcil para mim tambm. No fundo no quero te enganar..., nunca quis.
Alek suspirou. Comeava a perder a pacincia.
	Agora est se comportando como uma menina desobediente.
	Voc tem razo numa coisa. Eu devia ter falado tudo isto antes, e nunca ter permitido que a cerimnia prosseguisse.
Porm no  tarde demais, estou falando agora, antes...
	Agora estamos casados.
	Voc  impossvel, Alek.
	Talvez. Mas voc  minha mulher e continuar sendo.
Furiosa, Jlia retirou-se da sala. Na cozinha, ocupou-se lavando as panelas enquanto Alek terminava de jantar sozinho.
A um dado momento ele percebeu que Jlia fazia um telefonema.
	Vamos para a cama?  Alek convidou-a, to logo acabou de comer.
	Voc est louco?
	No, no estou louco, sou apenas seu marido.
	Sinto muito, Alek.  Jlia estava plida, sua voz tremia. Reconheo que eu devia ter falado alguma coisa antes...
Mas j telefonei para meu irmo. Assim que possvel, farei os arranjos necessrios para anular nosso casamento.
Alek no engoliu a isca. Jerry Conrad era um grande amigo seu e encorajara o matrimnio desde o incio. No, Jerry no iria contra ele. Conheceram-se anos atrs, na Europa. Logo foram iniciadas as negociaes para se conseguir um visto de entrada nos Estados Unidos para Alek, o que alis demorou um ano. No, Jerry no iria contra ele.
	Entende o que estou dizendo?  Jlia perguntou. Falo sobre a anulao de nosso casamento.
	Entendi, meu amor,
	No sou seu amor.  Ela estava quase chorando.
	Talvez no agora, mas ser muito em breve. Mais depressa do que imagina. Ah, Jlia, teremos filhos to maravilhosos! Todos com seu fogo e minha inteligncia.
Alek notou que Jlia lutava desesperadamente para se controlar, para no se entregar. E convenceu-se de que, no dia em que ela aceitasse o casamento, o transformaria num excelente amante. J podia visualizar a paixo, o poder de amar que fervilhavam dentro dela. No devido tempo viria a seus braos, cheia de desejo. E o encontraria esperando.
Certo de que a submisso de Jlia chegaria um dia, Alek foi para a sala, ligou a televiso e ficou ouvindo as notcias da semana.
Nenhum homem jamais a enfurecera tanto. Alek era um enigma. Fora necessria toda sua coragem para enfrent-lo. E ele mostrara-se to indiferente como se a acusasse de ter falhado desde o comeo.
Mas da, ouvi-lo declarar com convico ser tarde para ela mudar de ideia, era demais. Jlia preferia apodrecer numa cadeia a fazer amor com homem to cruel, de to mau gnio, to ardiloso...
De repente, sentiu-se cansada. Mas reconheceu que, se algum fora ardiloso, esse algum era ela. Exausta, resolveu se deitar, e irritou-se ao constatar que Alek estava na sala, assistindo TV, imperturbvel, confiante, seguro de si.
	Vou para a cama  Jlia anunciou tremendo, rezando para que Alek no a seguisse.
Mas ele desligou o controle remoto, levantou-se, e foi para o quarto sem que ela tivesse tempo de impedir.
	Estou muito cansada  Jlia falou, com olhar suplicante.
Se no conseguira convenc-lo racionalmente, talvez conseguisse atrair alguma simpatia. Enfim, compaixo era tudo o que lhe restava esperar.
- Eu tambm estou cansado  Alek declarou enquanto desabotoava a camisa.
	Voc pretende dormir aqui?
- Claro.  minha esposa, no ?
	Por favor... No posso dormir com voc.
Impassvel, Alek terminou de despir-se e afastou as cobertas da cama.
	Estamos casados, Jlia, e este quarto pertence a ns dois. No se preocupe, no vou insistir em meus direitos maritais. Voc vir a mim um dia. E, quando quiser, estarei  esperando. Sou paciente quando se trata de recompensa to valiosa.
	No posso... dormir... com voc.  A presuno de Alek a desnorteava.
	No sou um monstro, Jlia, apenas um homem.
	No te entendo.  Ela estava quase histrica.  Menti para voc, por que ainda me deseja? Devia se alegrar por ter uma chance de se livrar de mim.
	E minha mulher.
	Vou dormir no quarto de hspedes.
	Tem certeza?
	Tenho.
	Faa como quiser, ento.
Ela j estava saindo do quarto quando ouviu Alek sussurrar:
	Jlia... Por qu?
	Sinto muito.
	Voc passou o dia de hoje e muitos outros de sua vida lutando consigo mesma. No est cansada de tanta luta? Sou seu marido, seu amigo, divida o peso de sua dor comigo. Estou aqui para te ajudar, deixe-me tomar conta de voc, Jlia, deixe-me te amar.
Embora tentasse com todas as foras que ainda lhe restavam, ela no conseguiu emitir o mnimo protesto quando a boca de Alek pressionou firmemente a sua. Ele beijou-a do jeito que qualquer mulher gostaria de ser beijada, com uma gentileza que acendeu uma chama h muito enterrada em seu interior. Em seguida o beijo foi mais quente, mais violento. Alek provocou-a com a lngua at ela gemer de prazer.
	Venha, seja minha mulher!  Alek suplicou.
	Eu... preciso de tempo.
	Tudo bem. Posso esperar.
	Reconheo que voc est recebendo menos do que merece, Alek.
	Deixe-me ser o juiz de meu caso. Com o tempo voc me desejar tanto quanto eu te desejo.
	H muitas coisas que no sabe sobre mim.
	Conte-me ento.
Ela sacudiu a cabea e disse:
	No posso. Apenas lembre-se de que te preveni.
	Boa noite, minha querida esposa  ele murmurou, deixando-a ir.  Me sentirei s sem voc.
Jlia saiu do quarto depressa, sabendo que, se demorasse, acabaria na cama com Alek. "E s Deus sabe o que pode acontecer", ela pensou.
Jlia encontrou grande facilidade em evitar Alek durante o dia de trabalho na fbrica. O horrio de cada um era totalmente
diverso. Ela saa de casa antes de Alek acordar. No fim da tarde visitava a av. Voltava ao apartamento, jantava sozinha e, enquanto se preparava para ir  cama, ele chegava.
Alek trabalhava arduamente, tentando pr em produo suas ltimas pesquisas. Continuava mandando a Jlia os relatrios sobre as tintas Phoenix, como eram chamadas. Tudo parecia muito promissor.
Contudo, Jlia refletia s vezes, as coisas tambm pareceram promissoras trs anos atrs quando, no espao de uma semana, ela perdera o pai, fora trada pelo homem que amava e quase um negcio pertencente  famlia por trs geraes havia sido destrudo.
Ela aprendera, da maneira a mais dolorosa, uma lio: a de no confiar em ningum. E mais ainda, a de no contar com coisa alguma antes de a ter nas mos.
Santo Deus, dizia a si mesma ao sair do escritrio, estava ficando doentiamente filosfica. Talvez fosse isso o que o casamento fazia com uma mulher.
Casamento!
At a palavra lhe soava estranha. Estava casada, para o bem ou para mal, mas estava casada. Depois das discusses com Alek na noite de npcias, quando suplicara, ameaara, tentara faz-lo compreender suas razes, conclura que ele era quem estava certo. No haveria retorno. Estavam casados para o bem ou para o mal.
Jerry providenciara para que todos os jornais da cidade anunciassem as npcias, os homens de negcio e os amigos souberam do acontecimento. Seria embaraoso pedir uma anulao to imediatamente aps a cerimnia.
Ela acrescentara, desse modo, fraqueza e vaidade  longa lista de seus defeitos.
	Jlia  a av chamara sua ateno um dia no hospital , o que est fazendo aqui?
	Vim ver voc, vov.
	Alek jamais me perdoar.
	Ele ainda est na fbrica.
	Mas vocs so recm-casados!
	Alek tem andado to ocupado! Prefiro passar algum tempo com voc a voltar para um apartamento vazio.
	Isso me preocupa  Ruth comentou.
	Preocupa? No h necessidade, vov. Nossos horrios so diferentes. Vir para c  melhor para mim. Assim, quando Alek volta  casa, me encontra calma e relaxada.
	Otimo. Ele  um rapaz to bom! Voc acertou no casamento, Jlia. Sua mar de m sorte acabou.
Jlia quis evitar o assunto de casamento. Por isso perguntou  av:
	Quer que eu leia para voc?
	Sim, por favor. Leia os salmos de Davi.
Jlia abriu a Bblia e comeou a ler. Ruth adormeceu logo. Mas passara a hora do jantar. Passara a hora habitual de ela voltar para casa.
A noite estava quente e mida, a atmosfera pesada. O ar condicionado do apartamento no devia estar funcionando bem porque o calor era insuportvel. Mesmo com sua camisola reduzida, Jlia sentia-se pegajosa.
No conseguia dormir, por mais que tentasse. Aps uma hora, outra hora, desistiu. Levantou-se, foi  sala e ficou na janela. As luzes da cidade brilhavam  distncia. No teve ideia de quanto tempo ficara l, apreciando o silncio da noite.
A camisola estava grudada no corpo e ela baixou as alas, deixando parte dos seios  mostra e erguendo a barra quase at a cintura.
Um rudo suave chamou-lhe a ateno. Virou a cabea e viu um vulto na sala. Era Alek. Ele usava apenas a cala do pijama e seu peito nu, musculoso, estava exposto.
	Alek  Jlia murmurou.
	No pude dormir tambm.
	H... h quanto tempo est aqui?
	No espionava voc, Jlia, se  o que est insinuando.
	Eu... me assustei. S isso.
	Venha se sentar comigo.
	No, no quero.
	Estamos casados, Jlia. Voc no pode continuar me ignorando pelo resto da vida. Fizemos um contrato que ainda precisa ser cumprido.
Por que Alek trouxera de novo  baila aquele assunto de casamento, Jlia no entendia. Tinham vivido em paz por quase duas semanas, mal se encontrando, raramente se falando. Ela estava quase convencida de que poderiam continuar assim para sempre.
	No quero falar sobre nosso casamento.
	No, imagino que no.  A irritao dele se transformava em divertimento. 
	Desculpe. No quis te ofender, Alek.  que no esperava ver voc aqui.
	Est desculpada. Agora sente-se e vamos conversar.
Jlia hesitava. Depois achou que seria pior recusar. Sentou-se bem longe dele, no sof, e ps uma almofada junto ao peito para esconder a seminudez.
	Como vai sua av?  Alek perguntou.
	Mais ou menos na mesma. Falei com o mdico esta tarde e ele disse... ele disse que no podemos ter nenhuma esperana.
	Ela sofre?
	Sim, s vezes, embora tente esconder de mim. Oua, voc se importa se no falarmos de Ruth?
	No, no me importo. Alis, no quero falar sobre nada que te cause sofrimento.
	 que... ela  to importante para mim. Ruth h anos  toda nossa famlia, minha e de Jerry.
	E sua me?
	Morreu quando eu tinha quinze anos, e meu pai  ela acrescentou antes que Alek perguntasse  h trs anos atrs.... logo depois do incndio.
Jlia apertava a almofada contra o peito, com mais fora agora. Mesmo na sala escura, sentia o olhar de Alek. Ele a desejava e via-se que estava impaciente, e o corao de Jlia palpitava de medo e remorso.
	Por favor, no me olhe assim  ela suplicou. Alek a devorava com o olhar, e a lembrana dos beijos voltaram-lhe  mente.
	Voc  to linda, Jlia! Fica triste sabendo que  linda?
	Beleza no significa nada, Alek.
	 bastante inteligente em reconhecer isso.
	Ento, por que acha necessrio mencionar minha beleza?
	Porque no era bonita quando te conheci. S recentemente constatei que  uma verdadeira mulher.
Uma verdadeira mulher] Ela teve vontade de gargalhar.
	Isso  o que me deprime  Alek prosseguiu.  Ser casado com uma verdadeira mulher e no dormir com ela. Reconsidere os fatos, amor. Venha para a cama comigo!
	No... posso. Por favor, no me pea!  Ela levantou-se, dizendo:  Boa noite, Alek.
Mais uma vez sentia-se como a raposa numa caada inglesa. E o som do latido dos cachorros j estava bem perto.
	Jlia! Chegar o dia em que voc no fugir de mim como um coelhinho assustado. Um dia vir voluntariamente a meus braos.  Os seios dela estavam agora completamente descobertos.  Como j disse antes, voc  muito linda! Estou ficando impaciente, querida, e no sei quanto tempo vou conseguir esperar.
Depois de uma noite mal dormida Jlia no tinha disposio para lidar com uma enorme lista de problemas complicados. Resolveu pedir auxlio a Jerry.
	Ponha meu irmo na linha assim que puder  ela disse a Virgnia, sua secretria.
	Jerry telefonou h meia hora, e pediu que voc ligasse para ele.
Jlia assim o fez.
	Venha ao meu escritrio.  Jerry atendeu ao primeiro toque do telefone.
	Agora?
	J.
	O que h de errado?  Jlia perguntou.
	Vai saber logo que chegar aqui.
	Jerry, o que se passa?  ela perguntou ao entrar na sala do irmo, antes mesmo de perceber que Alek estava presente.
	Sente-se  Jerry ordenou.  Um fiscal do Servio de Imigrao veio aqui hoje. Eu sabia que isso iria acontecer um dia, mas no supus que fosse to cedo.
	Estamos sendo investigados?
	Voc e Alek precisam convencer os fiscais de que esto verdadeiramente apaixonados. Acham que podem?
	Eu...  Jlia comeou a falar.
	Claro que posso  Alek respondeu sem hesitar.
	E voc, Jlia?  Jerry insistia.
	Eu...
	Ela pode  Alek tomou a palavra. Parecia ter mais confiana na esposa do que ela prpria.  Tudo de que necessitamos  de um pouco de prtica, no  verdade, meu amor?

CAPTULO V

Num momento Jlia decidia acabar com a farsa de seu casamento, no importando a que preo. E, no momento seguinte, quando tudo caminhava para uma soluo, descobria que faria qualquer coisa com o fim de preservar sua unio com Alek.
Psicoterapia? Era disso que precisava, concluiu. Sim, de psicoterapia. Nunca havia sido uma mulher indecisa, de fornia alguma. Em geral sabia o que queria e ia atrs de seu ideal com uma determinao que deixava pasmos os que com ela conviviam.
Fora Alek quem a transformara numa mulher indecisa, numa mulher caminhando nas nuvens?
	Jlia?  Jerry tentava traz-la de volta ao assunto.  Pode?
Ambos os homens a observavam.
Conseguiria ela fingir que amava Alek? Conseguiria?
	Eu... no sei.
	Preciso repetir para voc o que significa sua recusa?  Jerry ameaou.
No era necessrio. Havia at a possibilidade de cadeia se eles no conseguissem provar ao SI sua sinceridade.
	Jlia sabe muito bem o que significa  Alek garantiu a Jerry, com muita calma.  No  verdade, meu amor?
- Sei o que pode acontecer  ela disse, de olhos baixos.
	O ponto  o seguinte  Jerry explicou.  Voc acha que pode convencer as autoridades da Imigrao de que o casamento foi por amor?
Jlia fez um aceno positivo com a cabea. No seria uma questo de fingir, mas de soltar seu corao. J se sentia atrada por Alek, fsica e emocionalmente. Do contrrio, no teria tido tanto prazer com os beijos dele e nem teria consentido em se casar.
Por mais que tentasse negar a si prpria, gostava da companhia de Alek e esperava com ansiedade os poucos momentos que passavam juntos cada dia.
	Tem certeza disso, Jlia?  Jerry insistiu.
	Tenho.
	Faremos tudo como se deve, Jerry  Alek prometeu.
 Espere e ver. Provaremos que Jlia e eu nos casamos por amor.
	Pare de andar de um lado para o outro  Alek dizia a Jlia, ambos na sala do apartamento.
Uma autoridade do SI era esperada dali a quinze minutos e ela j no conseguia se controlar.
	Andar ajuda-me a no pensar na entrevista  Jlia respondeu.  Voc devia saber mais a meu respeito, Alek, a pasta de dente que eu uso, coisas assim.
	No seja ridcula, Jlia.
	No estou sendo.  o tipo de perguntas que fazem, acho.
	Jlia, meu amor, um marido no presta ateno a essas ninharias. Agora relaxe.
	Como pode estar to calmo, Alek? Nosso futuro depende dessa entrevista. E tambm o futuro de sua me e de sua irm.
	No ignoro as consequncias.
	Ento, como pode estar to calmo?
	Muito simples, querida.  Assim dizendo, enlaou-a pela cintura e a trouxe para junto de si.
	Pare, Alek. O que est pretendendo fazer?  Ele beijou-lhe os cabelos.  Alek, voc est louco?
	No momento, sim.  Ele disse enquanto beijava-lhe o pescoo e os ombros.  Assim  melhor, muito melhor  sussurrou, ao perceber que Jlia relaxava um pouco.
	Acho... que no devamos estar fazendo isso.
	Isso o qu?  Alek perguntou, enquanto massageava-lhe as costas.  Isto?
Um suspiro escapou dos lbios de Jlia quando ele beijou-a na boca. E um desejo ardente percorreu o corpo de Alek no instante em que ela abriu os lbios para receb-lo.
Beijaram-se uma infinidade de vezes. Jlia resistiu no incio mas aos poucos cedia, entregando-se ao prazer.
Com o corao aos pulos Alek acariciou-lhe os seios deslizando a mo sob o suter. Ela aceitou a carcia e encorajou-o. Alek desabotoou-lhe o suti e, com o polegar, roou em movimentos circulares os mamilos que logo enrijeceram.
	Alek...
	Psiu!
A boca que Alek comprimiu contra os seios de Jlia estava mida e quente, e logo ele no teve muita certeza se os gemidos partiam de seus lbios ou de Jlia.
Nesse crucial instante a campainha tocou. Alek quis ignorar o chamado, mas Jlia exclamou:
	Oh, meu Deus! Deve ser o funcionrio do SI.
	Acho que sim.
	Alek, estou com medo.
	No tenha medo, tudo sair bem.  Ele ajeitou-lhe os cabelos e beijou-a suavemente na boca antes de abrir a porta.
	Al  Alek cumprimentou o cavalheiro.
	Sou Patrick O'Dell, fiscal do SI  o rapaz apresentou-se.
	Meu nome  Alek Berinski e esta  minha esposa Jlia Conrad.
	Bem-vindo  nossa casa, sr. O'Dell  Jlia falou do fundo da sala, com um sorriso forado.  Sente-se, por favor.
	Obrigado.
O'Dell tirou um arquivo da pasta e perguntou:
	Como se conheceram?
	Atravs de meu irmo Jerry  Jlia respondeu depressa.	Ele conheceu Alek h sete anos atrs na Europa.
	Jerry me ofereceu um emprego neste pas  Alek tomou a palavra.  E eu aceitei.
	Fale-me sobre seu trabalho  o agente do SI pediu.
Alek respondeu a todas as perguntas, no exagerando sua importncia na firma para no despertar suspeitas.
Porm Jlia, no entendendo a razo da modstia do marido, insistiu:
	Alek  um bioqumico bem dotado. Nossa firma foi quase  falncia h alguns anos atrs, aps um incndio. No sei o que seria da Indstria Conrad se no tivssemos Alek.
	Em outras palavras, o sr. Berinski tornou-se absolutamente indispensvel?
	Sim, indispensvel.
	Continua precisando dele?
r- No!  Alek respondeu antes que Jlia pudesse faz-lo.
	No concordo  ela protestou.  Precisamos dele agora mais que nunca. A nova linha de tintas com que Alek vem trabalhando h dois anos est pronta para ser comercializada.
Mas  apenas o comeo de uma nova era. Meu marido deu muito de si para esse projeto e merece colher os frutos de seu esforo.
	Voc est me dando mais crdito do que mereo, querida Alek disse, crente de que estavam num beco sem sada.
	Bobagem  Jlia continuou.  Alek  um gnio.
O'Dell no parava de tomar nota de tudo. Alek apertou os dedos de Jlia tentando desencoraj-la a falar. Porm, quanto mais insistia, mais ela sentia necessidade de prosseguir.
	Se um tem pelo outro tanta estima , O'Dell comentou , por que esperaram at o visto do sr. Berinski expirar para se casarem?
	Amor no  um sentimento que se planeje  Jlia observou.  Ningum entende o corao, entende? Eu, pelo menos, no entendo. E voc, Alek?
	Compreendo por que motivo o Servio de Imigrao suspeita de ns : Alek acrescentou.  Imaginvamos que isso fosse acontecer, mas no nos importamos, seguimos em frente.
O funcionrio fez outras perguntas, todas elas respondidas com sinceridade.
	Acho que  tudo  o rapaz declarou, guardando as anotaes dentro da pasta.
	Tudo?  Jlia repetiu, surpresa.  No vai perguntar que marca de pasta de dente meu marido usa?
O funcionrio riu pela primeira vez na entrevista, e disse:
	Deixamos esse tipo de pergunta para o cinema. Posso ver que vocs dois nutrem grande afeto um pelo outro. Eu gostaria que todos os meus casos fossem fceis como este.
	Precisamos assinar alguma coisa?  Jlia indagou.
	No.  O'Dell levantou-se.  Vou apresentar meu relatrio ao Servio no fim da semana. E muito obrigado por me receberem.
Alek acompanhou-o at a porta.
	Obrigado mais uma vez  Patrick O'Dell disse, ao sair.
	Jlia e eu  que deveramos agradecer.
Alek deu um suspiro ao fechar a porta.
	Jlia  sussurrou , conseguimos. Voc foi fantstica!
	Eu?  Ela arregalou os olhos.

	Foi direta, honesta. No comeo preocupei-me, achando que voc falava demais. Depois percebi que o convencia. Agiu como uma pessoa que no tinha nada a esconder, como se nosso casamento fosse tudo no mundo para voc. O que ajudou no foi nada do que eu disse ou fiz, mas suas palavras.
	Minhas palavras?  Jlia quase chorava. A tenso fora demais.
Alek tomou-lhe as mos e disse:
	Sente-se bem? O que h, meu amor?
	Acho que vou me deitar um pouco. Ficarei boa em alguns minutos.
Alek no queria que ela se retirasse da sala. Esperava poder continuar do ponto onde estavam quando O'Dell os interrompeu. A fome que Jlia despertara nele no fora ainda satisfeita, queria-a na mesma cama. Era sua esposa, afinal.
Porm conhecia-a bastante bem para saber que viria a ele no momento certo, quando estivesse pronta, no antes.
"Deus me ajude", Alek rezou, "e faa com que eu tenha pacincia para esperar."
Na cama, fingindo que dormia, Jlia reconheceu que s quando o funcionrio do SI levantou-se para sair ela se deu conta de que falara a verdade. E deu-se conta tambm de que Alek era to importante para sua vida pessoal como para a companhia. A descoberta foi um choque inesperado.
Ele sempre fora gentil, paciente e bondoso. Seus beijos sacudiam-lhe a alma. O que era isso seno amor? Deus que a ajudasse, estava se apaixonando por Alek. E tal coisa no podia acontecer, no queria am-lo. Depois que as tintas Phoenix estivessem no mercado, depois que a me e irm dele se estabelecessem nos Estados Unidos, pediria o divrcio. Envolver-se emocionalmente seria perigoso. Aprendera a lio confiando num homem; Roger ensinara-lhe muito bem.
 Jlia?
A voz soou com suavidade, seguida de vrias palavras em russo. Jlia conservou de olhos fechados. De vez em quando Alek falava na lngua materna, mas em geral apenas quando se beijavam.
Quando se beijavam! Ela corou  lembrana dos beijos que trocaram. No podia acreditar nas liberdades que Alek tomara naquela tarde. Liberdades, por sinal, que ela encorajara e apreciara. Seria eternamente grata a O'Dell por ter chegado na hora certa.
Por causa de seu descanso da tarde, Jlia imaginou que no conseguiria dormir cedo  noite. E, para evitar perguntas de Alek, demorou-se visitando a av depois do trabalho.
Quando chegou em casa verificou que o apartamento estava
vazio. Sentiu-se culpada. Alek por certo trabalhava ainda no laboratrio.
Jantou, tomou banho e foi para a cama. Devia estar feliz pela ausncia do marido. Em vez disso, ficou esperando por ele, atenta a qualquer rudo na porta da frente.
	Jlia?
Surpreendeu-se ao ouvir seu nome.
	Espero no ter te acordado, meu amor.
	No... eu ainda no estava dormindo.
O vulto de Alek, contra o batente da porta do quarto, era como o de um monstro irado. Era? No, no era. Por mais que tentasse enxerg-lo como um monstro irado, no conseguia.
	Como vai sua av?  ele perguntou.
	Nada bem. Voc esteve no laboratrio at agora?
	Estive.
	Acha mesmo necessrio trabalhar tantas horas assim?
	O trabalho ajuda-me a viver com minha frustrao.
Ele no precisou dar mais explicaes. Jlia sabia que Alek se referia ao desaponto sexual de seu casamento.
Como no obtivesse uma resposta, ele deu um suspiro e acrescentou:
	Descobri por que razo tudo foi to fcil com o SI.
Voc, minha querida esposa, est apaixonada por mim.
	Eu estou o qu?
	Apaixonada por mim  ele repetiu.  Fui um tolo em no ter descoberto antes.
	Voc precisa  de tratamento, Alek. Essa  a coisa mais ridcula que j disse.
	Espere. Prometo que tudo ficar melhor. Muito melhor.
	Muito pior, voc quer dizer. Agora, se no se importa, eu gostaria de dormir.
	Mais tarde. Antes precisamos conversar.
	Alek, por favor,  quase meia-noite. Quero descansar.
	Eu tambm, Jlia.
	Deixe nossa conversa para amanh  ela sugeriu.
	Voc concordou em ser minha esposa. Quanto tempo mais vai levar para cumprir sua parte no negcio? Quanto tempo mais, meu amor?
	Eu... j te expliquei. Preciso de tempo... para me ajustar.
Recuso ser pressionada a fazer amor s porque voc tem um libido superativo.
	Ser pressionada? Venho esperando por voc desde nossa noite de npcias. Como te disse antes, sou um homem paciente, mas at minha natureza calma tem limites.
	Estamos casados h apenas algumas semanas  Jlia argumentou.
	OK, mas voc me ama. Provou esta tarde. No h necessidade de esperar mais. Preciso de voc, voc precisa de mim.  Sorrindo, Alek retirou-se.
Furiosa com o comentrio, Jlia atirou um travesseiro que bateu na porta j fechada. Alek ouviu o barulho e comeou a rir.
Na manh seguinte, como de hbito, Jlia levantou mais cedo e fez o caf. Estava descala na cozinha quando Alek entrou.
	Bom dia  ele balbuciou, com voz sonolenta.
	Bom dia - Jlia respondeu, sem muito entusiasmo.   
	Dormiu bem?
No, ela no dormira bem. Mas resolveu mentir:
	Dormi. E voc?
	Jlia!  Alek passou o brao em volta da cintura dela.
 No podemos continuar assim. Estamos casados. Quando vai reconhecer isso?
Alek beijava-lhe o pescoo, roando a lngua de maneira sensual.
	Alek, por favor.
	Quer que eu pare?  Ele ergueu a cabea e fitou-a com ar de quem no podia acreditar no que ouvia.
	Que...ro.
Alek tocou-lhe um seio com gentileza inesperada, considerando-se sua impacincia. O mamilo endureceu ao contato e palpitava  medida que ele o contornava com o polegar.
	No pude dormir por te desejar  sussurrou.  S pensava em como seria te beijar e te amar. Sei que voc  me quer, Jlia. Por que nos tortura tanto?
	Eu... preciso trabalhar.
	Deixe-me te amar, Jlia  Alek suplicou, com a boca junto  dela.  S uma vez.  tudo que te peo.
	Uma vez? E com isso cumpro minha parte no contrato?
Jlia sentia os seios intumescidos. Alek no respondeu, mas fitou-a, olhos nos olhos, face na face, corao no corao.
Ela umedeceu os lbios, antecipando o beijo. E Alek no a desapontou. Beijou-a com uma fome que a assustou. Com as mos afagava-lhe as costas segurando-a ao mesmo tempo com fora, impedindo-a de fugir, caso desejasse. Antes que Jlia se desse conta do que ia acontecer, Alek escorregou as mos por dentro da cala do pijama dela e ergueu-a pelas ndegas, encostando-a em seu membro viril, uma verdadeira barra de ao entre os dois.
	Oh, Alek  Jlia suspirou, afastando-se dele.  Vou...chegar atrasada no trabalho.  E saiu correndo para o quarto. Para seu santurio.
Chegou no escritrio de pssimo humor e culpou Alek por tudo. Afinal, no era feita de pedra, mas de carne e osso. E que Deus a ajudasse, pois no deixava de ser mulher, apesar de todas as suas desiluses amorosas. No conseguia reagir de outra maneira aos beijos e contatos de Alek. Sentia enorme atrao sexual por ele.
Mas isso no significava nada. Alek insistia que ela o amava, e no podia ser verdade. Queria apenas persuadi-la a fazer amor, nada mais. Conversa carinhosa com um propsito em mente: seduzi-la.
Fora seduzida antes, por um perito nessa arte. Comparando ambos os homens, achava Alek muito mais honesto em seus objetivos; portanto, era bem mais fcil se defender contra ele.
Furiosa, Jlia ligou para a extenso de Jerry.
	Pode subir um pouco?  ela pediu.
	Claro. Tudo est bem?
	No!
	Pensei que tudo tivesse ido bem com o fiscal do SI.
	E foi, Jerry. O que tenho a falar  sobre Alek.
	Vou j para a.
Jlia andava de um lado para o outro da sala, quando ele entrou.
	O que h, afinal?  Jerry perguntou.
	Tenho... um problema.
- Com o qu?
	Com quem  ela corrigiu-o.  Com Aleksandr Berinski.

	O que foi que ele fez?  Jerry franziu a testa e suspirou, resignado.
	Tudo... Oua, no quero entrar em detalhes. Vamos agir da maneira a mais simples possvel. Est na hora de ele sair do apartamento. Um de ns dois tem de fazer isso, eu ou ele.

CAPITULO VI

	Voc quer que Alek saia de seu apartamento?  Jerry repetiu.
	Voc me ouviu muito bem. Nosso casamento j foi aceito pelo SI. Qual o motivo de continuarmos com essa farsa?
	Jlia...
	Jerry, no estou com vontade de brigar com voc. Deixo os arranjos em suas mos.
	No vai falar com Alek?
	No ser necessrio. Ele saber tudo por seu intermdio.

	Pois ento saiba que eu no farei esse papel de mediador.
A recusa de Jerry chocou-a.
	O que quer dizer com isso?  perguntou.

	Em primeiro lugar, no admito que trate Alek como uma praga descartvel.
	No  bem isso  Jlia protestou, embora achasse que Jerry tinha razo. No podia tratar Alek daquele jeito s porque receava se apaixonar por ele.
	Em segundo lugar  Jerry prosseguiu , seria uma loucura jogar tudo fora neste momento. Voc acredita que por ter se sado bem na entrevista com o SI, seu problema esteja resolvido? Pense bem, Jlia, o que pretende fazer  exatamente o que os fiscais do Servio de Imigrao esperam que acontea.
	No vo saber de nada.
	No conte com isso.  o trabalho deles descobrir esse tipo de coisa.
	Jerry, por favor, o homem  impossvel... Fiz minha parte, o que mais ele espera de mim?
	Alek  seu marido.
	E voc fala como ele. Alek me assusta... Ele me faz sentir reaes que eu no gostaria de sentir. Estou com medo, realmente com medo.
	No sei o que fazer  Jerry disse com um sacudir de ombros.  Gostaria de saber, para seu bem. Alek tambm gostaria de saber, garanto.
A frustrao de Jlia vinha em ondas, ondas de mar alta, umas atrs das outras, cada vez com maior intensidade.
Seu humor no havia melhorado ainda quando, duas horas mais tarde, Alek apareceu inesperadamente na sala. Ela estava no telefone e irritou-se com a intromisso. Alek fitou-a, parecendo ter vontade de arrancar-lhe o fone das mos.
Jlia cortou a conversa telefnica o mais depressa possvel, sem deixar que ele percebesse que estava amedrontada.
	Quer alguma coisa?  perguntou, colocando o fone no gancho.
	Soube que voc conversou com Jerry acerca da mudana do apartamento de um de ns dois. Quero descobrir o que se passa nessa sua cabea louca.
	Achei que era o mais lgico a ser feito.
	Por qu?
	Minha deciso tem sentido. A nica razo de vivermos juntos foi... 
	Vivemos juntos, minha querida esposa, porque somos casados.
	De nome, apenas.
	Voc nega seus votos matrimoniais, nega-me o direito de ser seu marido. E abusa de meu orgulho envolvendo seu irmo no caso. Me pede pacincia e depois me apunhala pelas costas.
	Eu... expliquei, no dia de nosso casamento, que precisava de tempo.
Entrar em contato com Jerry fora um erro, Jlia reconhecia.
Mas estava cada dia mais apavorada, no ignorando o poder de atrao que o marido exercia sobre ela.
	Voc  minha mulher  Alek gritou.
	E no muitoboa mulher  ela sussurrou.
	Estamos casados, Jlia, e quanto mais depressa voc aceitar a situao, melhor.
	No sei... se posso. Acho que jamais serei sua mulher do jeito que voc deseja.
Alek aceitou o desafio com um sorriso.
	Vamos ver, minha querida esposa.  Ele deu um passo  frente.
	Se se aproximar mais de mim, gritarei por socorro  Jlia ameaou-o.
	Grite, ento. Voc precisa de mim. Quando vai admitir isso? Quando?
	No preciso de homem nenhum.
	Est com medo, no est? No v, meu amor, como se engana? Precisamos um do outro. Por que insiste em continuar com esse jogo sem sentido?
Jlia ficou gelada. No sabia o que dizer.
	Jlia?
	Eu no quis...  ela comeou a falar.
Alek deu mais dois passos e abraou-a. Em seguida cobriu-lhe a boca com um beijo violento.
Jlia sentiu-se pegando fogo enquanto girava os quadris contra o corpo dele. As mos poderosas de Alek a aprisionavam. Coxa contra coxa, no era possvel a Jlia ignorar o estado de excitao do marido.
Com uma das mos Alek tentava puxar-lhe o zper da saia sob protestos que ele calou com outro beijo.
	Estou cansado de lutar  sussurrou.  Voc  minha e sempre ser.
Jlia quis discutir, quis empurr-lo, mas Alek colou os lbios nos dela, com gentileza. Estavam to perto um do outro que parecia que s um corao palpitava.
Soluando, ela passou os braos em torno do pescoo do marido, enterrando o rosto no trax musculoso. Lamentava os anos perdidos. Desde a  morte do pai e a traio de Roger, rejeitara o amor e o prazer. E, rejeitando, se punia.
	Jlia, o que foi?
Ela recusou responder.  
	Fale. Fale que precisa de mim, fale que me deseja Alek insistia.	
Ela continuava soluando e limitou-se a fazer um gesto afirmativo com a cabea.	
Isso no  bastante, querida, quero palavras.
	Eu... preciso de voc... Alek. Mas tenho tanto medo!
Alek abraou-a, esperando que ela esgotasse todas as lgrimas. Depois preveniu-a:	
	Acabe com essa conversa de um de nos dois sair do apartamento. Entendido?	
	Entendido. Nao sei como voc me aguenta, Alek.
	Nao sabe? Pois vai descobrir muito breve.
O interfone tocou. Era Virginia a secretaria anunciando:
	Esta na hora da reunio marcada para as nove e meia.
	Mande todos embora - Alek ordenou.
	Eu... no posso fazer isso.
	Ok  ele disse, e beijou-lhe a ponta do nariz. Soltou-a vagarosamente.
Quando Juha imaginou que seu dia no traria mais emoes,
recebeu um telefonema informando que a av entrar em coma.
Cancelou todos os compromissos e foi para o hospital.
Assim que entrou no quarto concluiu que a avo estava nas ltimas. Ruth, sua querida Ruth, partia, e no podia fazer nada para evitar a catstrofre.
Sentada ao lado da av tinha a impresso de ouvir-lhe a voz: "Minha morte  inevitavel, ainda que no desejada. Mas morro contente porque voc enfim reconheceu que precisava amar de novo".
Meia hora mais tarde Jerry chegava, branco como cera.
	O que aconteceu?  perguntou  irm, num sussurro.
	Ruth est em coma. Falei com o dr. Silverman. Ele explicou que no havia mais nada a ser feito. Admirou-se at de vov ter durado tanto.
Jerry puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da irm.
	Eu adoro essa mulher, Jlia.
	O que vamos fazer sem ela, Jerry?
	No sei. Francamente, no sei.
	Vou sentir muitas saudades.
Jerry apertou a mo de Jlia e disse:
	Alek telefonou. Vai chegar aqui em alguns minutos.
Jlia queria o marido ao seu lado, nunca o desejara tanto como naquele instante. Arrependia-se de tudo o que fizera e dissera. A dedicao de Alek fora to completa e ela fizera to pouco para merecer isso! Tratara-o mal e ele ainda a amava. A um dado momento, Jerry disse:
	Preciso ir.
Jlia entendeu. Amava o irmo mas sabia que cada um tinha seu jeito de encarar a dor. De qualquer maneira, preferia ficar sozinha com Ruth.
As enfermeiras entravam e saam do quarto o tempo todo. Uma delas aconselhou-a a dar uma volta, a comer alguma coisa, mas Jlia recusou. Receava que a av deixasse esse mundo enquanto ela estivesse fora.
Com certeza cochilara porque a prxima coisa de que tomou conhecimento foi da presena do marido ao seu lado.
	Como vai ela?  Alek perguntou.
	No houve mudana desde que cheguei aqui.
	Voc jantou?
	No tenho fome.
Alek murmurou qualquer coisa em russo. O som da lngua era lindo. O que quer que ele tivesse dito, pareceu agradar a velha senhora que sorriu. No comeo Jlia sups que imaginara, mas no se podia negar a mudana operada nos traos fisionmicos de Ruth.
	J  meia-noite, meu amor.  Jlia olhou para o relgio, certa de que Alek exagerava. Mas era verdade, ela dormira mais do que imaginara.  Venha, eu te levo para casa.
	No, no quero ir.
	No adianta continuar neste quarto, Jlia. Est se desgastando fsica e moralmente.
	V voc, eu fico mais um pouco.
	No saio daqui sozinho. Sua exausto e abatimento me preocupam. Seu comportamento  irracional.
	No quero deixar minha av. Pretendo ficar com ela at o fim.
	Por qu?
	Quando Ruth morrer, uma parte de mim ir com ela.
A melhor parte, Jlia temia. Sua f em Deus e em si prpria seriam sacudidas e receava que fosse para sempre.
	Voc gostaria que sua av ficasse presa a este mundo, sofrendo como est sofrendo?
	No  Jlia respondeu, e com honestidade. Contudo, prendia-se a Ruth firmemente.
Jlia sentira muito a morte do pai. E um remorso violento apoderou-se dela quando descobriu que seu pai estava certo ao preveni-la contra Roger. Os dois discutiram e foi durante a discusso que ele sofreu o enfarte morrendo prematuramente.
Logo depois disso Jlia teve dificuldade em ser feliz de novo. Entregou-se ao trabalho e ao desejo de progredir financeiramente na vida. Sua meta principal era reconstruir o que Roger destrura na Indstria Conrad.
E conseguiu grande progresso. Encorajada por Ruth, ia aos poucos recuperando o entusiasmo perdido. Ria mais e reiniciava uma vida social.
	Venha  Alek insistiu, pegando-a pelos ombros.
E ela acompanhou-o como uma autmata, porque no tinha foras para resistir. Mas antes de sair do quarto beijou as faces da av.
Alek a conduzia gentilmente pelos corredores do hospital, como se quisesse passar parte de sua fora a ela. Conscien-temente Jlia jamais admitiria precisar do marido, jamais confessaria ter prazer na companhia dele, nem em momento to difcil de sua vida.
Mas Alek acreditava que, uma vez vencida a barreira, um tesouro inestimvel o aguardava. O amor.
No sabia quase nada do passado dela. At Jerry relutava em falar sobre Roger Stanhope. Porm nos ltimos tempos Alek se propusera descobrir tudo.
Naquela dia mesmo, durante o almoo com o pessoal da fbrica, o nome de Roger foi mencionado e ele surpreendeu-se com o silncio que se seguiu.
	Se quer saber algo sobre ele, pergunte a Jlia  algum na mesa sugeriu no instante em que ele indagou qualquer coisa.
Pelo pouco que ouvira, Roger parecia ser considerado o culpado do incndio. Nesse caso, por que motivo no estava preso?
Jlia no falou nada no trajeto do hospital  casa. Em seu quarto sentou-se na cama, como uma boneca de pano, sem nimo para nada.
	Quer que eu te ajude a se despir?  ele perguntou.
	No, obrigada.
Alek foi para a cozinha e preparou um ch. Voltou ao quarto e bateu na porta.
	Entre  ela disse, j de pijama.
	Fiz ch para voc. Tome, te far bem. Minha irm chegou de Prushkin esta tarde e minha me vir daqui a dois meses.
Fui ao aeroporto me encontrar com Anna, da no poder ter ido mais cedo ao hospital. Anna vir aqui amanh de manh.
	Por que voc  to bom para mim?  Jlia perguntou, ao pegar a xcara de ch.  No mereo tanto, no depois do que disse e fiz.
Alek no respondeu. Ajudou-a a deitar-se e cobriu-a com carinho. Jlia segurava o pranto com dificuldade.
	Alek.  O nome dele no passou de um mero sussurro.
 Voc se importaria... de dormir comigo esta noite? S esta noite?
O convite foi um choque para Alek. Desde a noite de npcias esperava por esse pedido. Mas nunca imaginara que pudesse ser numa ocasio em que ela estava emocionalmente to perturbada.
No mesmo instante, contudo, percebeu que Jlia no lhe oferecia o corpo, apenas procurava consolo. Mesmo assim, considerou j um passo dado.
Tomou-lhe a mo, beijou dedo por dedo; em seguida apagou a luz. Despiu-se e deitou-se ao lado dela.
Foi a mais doce tortura que Alek j sentira na vida: t-la aconchegada em seus braos que a esperaram com ansiedade. Jlia colou-se ao corpo dele, pernas acetinadas roando contra pernas musculosas; deu um suspiro e adormeceu quase instantaneamente, com a cabea apoiada no trax quente de Alek.
Sim, ela dormia.
Alek abraou-a com fora e beijou-lhe o topo da cabea.
Era esse o papel que lhe cabia. O de consolar. No o de amante, no o de marido. E segur-la assim to junto a si, foi a forma mais pura de tormento que j sofrera.
No dormiu, o que foi muito bom, pois Jlia estremeceu minutos depois, presa s garras de um pesadelo.
	No!  ela soluou, afastando-se e enterrando as unhas no brao dele.
	Jlia, acorde, foi s um sonho.
Ela levantou a cabea do travesseiro, olhou-o fixamente como se imaginasse que Alek fosse uma viso, prestes a desaparecer.
	Est tudo bem, querida. Continuo aqui com voc.
Ele roou-lhe a boca com a sua. E Jlia recebeu o beijo sem hesitao, gemendo de prazer. Com sua lngua procurou a dele e dessa vez foi Alek quem gemeu. E ambas as lnguas iniciaram o eterno duelo do amor.
O corpo de Alek pegava fogo, mas ele no a forou a nada mais. Estavam to unidos fsica e emocionalmente que ficou
imvel, desejando que aquele momento se eternizasse. Porm, o olhar lmpido que Jlia lhe lanou foi o bastante para convid-lo a beij-la novamente. E ele o fez, com muita ternura.
Alek entoou ento a cano que sua me cantava para faz-lo dormir. Jlia no entenderia as palavras, mas a melodia acalmaria sua alma sofrida.
Em alguns minutos ela dormia mais uma vez.
Alek adormeceu segundos depois.
Jlia abriu os olhos e sentiu a presso quase insuportvel de sua dor oprimindo-lhe o peito. Ruth estava morrendo... Ela virou-se na cama e constatou que no era a dor que lhe oprimia o corpo, mas Alek.
Alek! Lembrou-se ento de tudo o que acontecera na vspera. Santo Deus, ela mesma o convidara! Ela lhe pedira para dormir em sua cama. Alek concluiria que contava com ele todas as noites, dali por diante. Levantou-se ento com muito cuidado para no perturb-lo.
	Jlia? Bom dia.
	Bom dia.
	Dormiu bem?
	Dormi.  Ela desviou o olhar para esconder as lgrimas.
	Jlia?
Alek pegou-a pela mo e a fez voltar para a cama. Abraou-a. No houve necessidade de dizer nada. Beijou-lhe os cabelos e, ato contnuo, Jlia passou os braos em torno do pescoo dele.
Alek sussurrou algumas palavras em russo. Jlia adivinharia o que ele estava dizendo, pensou, pelo tom carinhoso de sua voz; adivinharia que sussurrava que estava l, que a amava.
E pela primeira vez a intimidade no a assustou.
Bem mais tarde ela levantou-se e foi  cozinha com a inteno de fazer caf. Parou na porta ao ver uma mulher junto ao fogo.
	Bom dia  a mulher cumprimentou-a, num ingls com sotaque russo.  Sou Anna, a irm de Alek.

CAPITULO VII

Al, Anna.  Jlia sentiu-se como iuma idiota e culpou Alek por no a haver prevenido de que a irm estava no apartamento.  Bera-vinda aos Estados Unidos.
	Obrigada.
Anna era pequena, magra, de cabelos castanhos presos numa trana. Os olhos, similares aos de Alek, deram a Jlia a impresso de que o marido a encarava. O sorriso de Anna foi carinhoso e Jlia gostou dela imediatamente.
	Meu ingls  pssimo, mas prometo estudar todos os dias  a moa disse,  guisa de desculpas.  Vou preparar seu caf.
	Obrigada, Anna.
	Ovos e torradas?
	Sim.
Em geral, a primeira refeio de Jlia era simples. Ela passava por uma lanchonete a caminho da fbrica, tomava um suco de laranja, uma xcara de caf e comia uma torrada. Quando Alek sugerira que contratassem a irm como governanta e cozinheira, Jlia concordara logo. Seria um meio de ajudar a famlia dele e de terem refeies preparadas em casa.
Mas depois que provou o breakfast de Anna, concluiu que Anna  quem lhes fazia um favor.
Jlia lia o jornal quando Alek entrou na cozinha, j pronto para sair. Ps caf em sua xcara enquanto a irm falava com ele em russo.
	Ingls, Anna, s ingls  Alek insistiu.
	Este pas  muito lindo.
	 verdade  ele concordou. E virando-se para Jlia que preferira ignor-lo at aquele instante:  Telefonou para o hospital?
	Telefonei... No houve mudana. Vou ao escritrio esta manh.
	Promete me manter informado sobre o estado dela, Jlia?
	Naturalmente.
Anna falou qualquer coisa em russo com o irmo e Alek disse  esposa:
	Anna percebeu que voc chorara, e achou que eu era a causa de suas lgrimas. Ficou furiosa comigo.
	Contou-lhe sobre Ruth?
	No. Ela quer me repreender, ento deixe. Descobrir a verdade logo.
	Mas por que prefere agir assim?
Alek tampou a boca de Jlia com um dedo e murmurou:
	No se preocupe comigo e com minha irm. Ns nos entendemos.
Jlia reconheceu bem depressa que fora um erro ter ido ao escritrio antes do hospital. Havia decises importantes a serem tomadas e isso tudo atrasou sua visita a Ruth. Alm da doena da av, preocupava-a seu relacionamento com Alek.
Sentou-se  escrivaninha segurando a cabea com as mos. Tivera certeza de que seu casamento no funcionaria. Agora, no sabia mais nada. Precisara de Alek e ele a ajudara, a consolara.
Cada dia sentia-se mais presa ao marido. Cada dia a muralha que levantara entre os dois se desmantelava. Tijolo por tijolo retirado, vagarosamente ela se expunha aos raios quentes do sol. Alek. Vivera tanto tempo na sombra que se acostumara ao frio da escurido.
Gritara, berrara, insistindo que no precisava de um homem na vida, de um marido. Forara-se a tir-lo da mente. Mas o eco de seu grito voltara vazio.
Foi enquanto se propunha a no pensar mais em Alek, a se concentrar no trabalho, que ele entrou na sala.
	Acho que precisamos conversar  disse sentando-se, como se tivesse todo o direito para isso.
	Conversar sobre o qu?  Jlia perguntou.
	Sobre ontem  noite.
A atitude de Alek era petulante, bem  vontade, como se o fato de terem dormido na mesma cama fizesse parte de um plano desde o incio. Ela cara no esquema sem saber o que fazia. O comportamento do marido a enfureceu.
	Cometi um erro grave  Jlia confessou.  E no repetirei.
	Tive tanta esperana de que voc houvesse reconsiderado seu comportamento! Se no quer enxergar a verdade, eu a revelarei. Foi bom te segurar em meus braos, Jlia, e estou aqui para te servir. Sempre estarei. Se no acredita em nada mais, ao menos acredite nisso.
Sem nenhum comentrio, Jlia pediu licena e retirou-se da sala. No entendia aquele homem com quem se casara e duvidava de algum dia vir a entend-lo. Ela pagara toda a bondade recebida enganando-o, insultando-o, e abusando de seu orgulho. No uma vez, mas dezenas de vezes.
Tudo porque no queria am-lo. O amor a assustava, a fazia sofrer.
Tirando a aliana do dedo, surpreendeu-se por jia to frgil ter tanto poder. Colocou-a de novo, se perguntando se um dia entenderia Alek. Mas... como poderia ser possvel, se ainda no entendia a si mesma?
Jlia foi ao hospital. Sentia o corao pesado enquanto andava pelos longos corredores que a conduziam ao quarto de Ruth. Abriu a porta com cuidado. O rosto da av era como alabastro, porm ela parecia em paz, como se toda a dor houvesse passado.
Jlia pegou-lhe a mo e pressionou-a contra a prpria face. Fechou os olhos. Imediatamente aps teve impresso de que a av acordava. Pareceu estar esperando por sua visita a fim de poder falar-lhe. E disse:
	No fique triste, Jlia. Vivi uma vida longa e muito feliz. Voc foi a razo principal de minha alegria, o melhor presente que Deus me deu.
	No, vov, no me deixe! Por favor, no me abandone.
	Um futuro te espera, querida, no se prenda ao passado.
Voc tem um marido que te adora e os filhos que viro. Sua vida est comeando. Todo seu sofrimento se transformar num buque de alegrias. Confie no que digo, minha filha.
	Um buque de alegrias  Jlia repetiu.
Ela no conseguia pensar no futuro, no naquele momento difcil por que passava. Lgrimas escorriam-lhe pelas faces, e o consolo da av era como uma despedida.
Mais tarde no soube dizer quanto tempo ficara ali ao lado da cama, segurando a mo de Ruth; mas a um dado momento percebeu, ao olhar para o monitor que registrava as batidas cardacas, agora silencioso, que a av se fora. Calmamente, sem agitao, ela passara da vida para a morte. Esperara a chegada da neta e partira em paz.
Jlia sempre imaginou que no seria possvel preparar-se para aquele momento terrvel. E de fato no foi. A morte de Ruth no devia ser um choque; ela estava doente h anos, e definhava cada dia. Jlia aceitara a inevitabilidade da morte da av. Mas nada podia t-la preparado para o golpe doloroso que atingia seu corao no momento. Nada. Jogando-se numa cadeira, chorou copiosamente.
Uma enfermeira, um mdico e vrios assistentes entraram no quarto. Jlia no dirigiu a palavra a nenhum deles. No conseguia. Os soluos sacudiam-lhe os ombros.
A enfermeira a levou para fora do quarto. Ela sentou-se numa saleta, sozinha, desolada, inconsolvel.
Jerry e Alek chegaram juntos, logo depois. Jerry entendia-se com o supervisor do hospital enquanto Alek a abraava, assim permanecendo at que se secassem todas as suas lgrimas.
Jlia reconheceu que precisava do marido, e decidiu no mais mentir a si prpria. Enterrou o rosto no peito de Alek  procura de consolo, achando que, de uma maneira ou de outra, ele absorveria sua dor.
Ficaram no hospital por horas. Havia papis a serem assinados, e decises a serem tomadas. Jerry e Alek foram depois providenciar os arranjos para o funeral que seria dali a trs dias.
Jlia surpreendeu-se com sua calma ao cuidar dos detalhes sociais, das flores, da msica, da cerimnia religiosa.
Era noite quando tudo foi terminado.
Jerry estava plido, parecendo exausto fsica e emocionalmente.
	Quer ficar conosco hoje?  Jlia lhe perguntou, no querendo deix-lo s.
	No, obrigado.
	Anna deve ter deixado o jantar pronto. Venha  Alek insistiu.
	No, obrigado, Alek. Apanho alguma coisa pelo caminho.
No se preocupem comigo.
Alek e Jlia seguiram para o apartamento. Ao abrir a porta, Alek perguntou  mulher:
	Como se sente?
	Esgotada.
Ele levou-a at a cozinha. Jlia no comera nada desde a hora do caf da manh, e tambm no tinha fome.
Alek tirou dois pratos d forno e os ps sobre a mesa.
	No estou com fome  ela disse.  Vou antes tomar um banho.
Ao se olhar no espelho do banheiro constatou o que temia. Seus olhos estavam vermelhos, inchados, e o rosto muito plido. Aparentava bem mais idade que seus vinte e sete anos.
Ruth se fora e, alm de Jerry, estava sozinha no mundo. Era grata a Alek por sua assistncia em momento to dramtico, mas ele um dia iria embora. Enquanto tomava banho, Jlia pensava nas palavras da av, um pouco antes de morrer: Os filhos que viro.
No haver filhos porque no haver casamento de verdade. Ela sentia-se mais determinada que nunca a no cruzar a linha divisria, em especial agora, estando to vulnervel. Jamais faria Alek acreditar que poderia haver algo permanente entre os dois.
Ele a aguardava na porta do banheiro.
	Estou bem  Jlia mentiu.
	Voc est exausta. V para a cama j.
Alek acompanhou-a ao quarto como se ela fosse uma criancinha. Em qualquer outra circunstncia Jlia teria se ressentido do modo como era tratada, mas no naquele momento. Sentia-se at grata.
Entrou embaixo das cobertas, fechou os olhos e sussurrou:
	Alek.
	Sim, meu amor?
	Quer cantar para mim outra vez?
Ele cantou, com voz clara e forte. Jlia quis perguntar o significado das palavras, porm sua mente tomou logo outra direo: a do repouso. A da paz.
Acordou em sobressalto. O quarto estava s escuras e o relgio marcava uma hora da madrugada. Quando seus olhos se acostumaram  ausncia de luz, viu Alek sentado numa cadeira ao lado da cama, em posio incmoda.
	Alek?  Ela levantou a cabea, apoiando-se num cotovelo.
	Jlia?
	Que faz voc aqui?
	No quis te deixar sozinha.
	Estou bem, Alek  ela mentiu mais uma vez.
	Quer que eu cante de novo?
Com lgrimas nos olhos, Jlia sacudiu a cabea num gesto afirmativo. Precisava de consolo, queria ser abraada, acariciada.
	Jlia, meu amor.  Alek afagou-lhe o rosto com a mesma gentileza que usaria para com uma criana.
	Por que voc  to maravilhoso? Por que  to bom para mim?
	Ter a resposta muito breve, querida.
	Sou pssima esposa.
	Ainda no se deu a chance de provar como  boa.
	Tratei voc de modo abominvel, Alek. Devia me odiar.
	Odiar voc? Seria impossvel.
	Quer dormir comigo? Por favor! Eu... preciso de voc.
Alek beijou-a. O beijo foi suave, e Jlia interpretou-o como um agradecimento.
Alek deitou-se ao lado dela. Abraou-a e sentiu-se vivo qtfando Jlia vibrou em seus braos.
	Pode dormir agora?  ele perguntou.
	Acho... que sim. E voc?
	Tudo bem comigo.
	Se importaria... de me beijar de novo?
Alek beijou-a. Carinhosamente, e sem pedir nada em retorno.
	Quero fazer amor com voc, Alek.
	No agora, Jlia.
	Por qu?
	Porque eu me sentiria tirando vantagem de sua dor.

	Por que no me d o direito de ser meu prprio juiz?  Jlia perguntou.
	Neste momento, no! Te desejo, Jlia, e nunca duvide disso. Mas recuso pr minhas necessidades acima das suas.
Voc est confusa e ferida. E, quando fizermos amor, no quero que tenha remorsos na manh seguinte.	.
	Ningum jamais me disse que voc era to nobre, Alek!
Mais calma agora, Jlia aconchegou-se a ele e fechou os olhos. Preferia fazer amor, mas abra-lo apenas j era grande consolo para seu sofrimento.
Alek invejava a capacidade de Jlia em adormecer. Esse luxo lhe era negado.
Por semanas esperara que a esposa viesse a ele, com o fim de cumprir seu papel de mulher. Aos poucos perdia a pacincia. Apesar disso, quando Jlia o convidou para o amor, sentiu-se forado a falar de honra.
Honra! Mas, a que preo? Seu corpo ardia em necessidade. Seu corao estava cheio de amor a dar. Mulher alguma o impressionara tanto. Mulher alguma o enfurecera mais do que Jlia.
"De incio ela ficou irritada com a recusa", Alek disse a si mesmo, "mas depois pareceu aceitar o bom senso de minhas palavras. Bom senso coisa nenhuma, fui um verdadeiro idiota."
Talvez no... talvez houvesse sido um idiota... inteligente. O tempo diria.
Horas mais tarde Alek percebeu que Jlia se movia na cama, e constatou que j estava claro.
	Bom dia  ela disse.
	Bom dia. Dormiu bem?
	Tanto quanto se poderia esperar. E voc, Alek?
	Dormi bem.
	Obrigada, Alek.
	Obrigada por que, Jlia? Porque dormi com voc?
	No... bem... sim... tambm por isso. Mas obrigada por no...
	Por no termos feito amor?
	.
Jlia pegou o penhoar e cobriu o corpo, tentando escond-lo. Ela passara a maior parte da noite grudada a ele, quase nua, Alek pensou. Por que tanta modstia assim to de repente?
	Nestes prximos dias estarei muito ocupada  Jlia preveniu-o.  Acho que passarei horas cuidando do destino a ser dado s coisas de Ruth, por isso provavelmente no nos veremos com frequncia durante algum tempo. Minutos mais tarde ela deixava o apartamento.
	Que h com sua mulher?  Anna perguntou.  Esteve chorando?
	A av dela morreu.
	Voc ama Jlia, Alek?
	 minha mulher, no?  Alek j se arrependia de ter contratado a irm para trabalhar no apartamento. Anna interferiria em sua vida matrimonial.
	Mas no se casou por amor, no  verdade, Alek?
	Eu...
	Jlia sabe que voc no a ama.
Alek no deu explicaes. Levantou-se da mesa e foi para a fbrica.
Cuidar dos pertences de Ruth foi mais penoso para Jlia do que ela esperava.
Quanto s roupas, no houve problema. Colocou-as em caixas para do-las a instituies de caridade. Porm a dificuldade estaria em se desfazer dos retratos. Havia fotografias de Louis Conrad tiradas durante a Segunda Guerra Mundial, e fotos da av, moa e atraente, vestindo maio modesto, ao lado de um jovem soldado. Seu av, com certeza.
Jlia permaneceu muito tempo sentada, com as fotografias nas mos, lembrando-se da histria de amor que Ruth lhe contara. To diferente dos tempo modernos onde o sexo dominava as relaes.
No em seu caso, Jlia admitiu. Parecia-lhe incrvel estar casada j h tanto tempo, sem fazer amor.
Incrvel! Alek se mostrara ansioso por usufruir o lado fsico do casamento at ela revelar os primeiros sinais de desej-lo tambm. A, Alek recuara. Os homens eram mesmo todos iguais. Jlia sorriu. H quanto tempo no sorria!
"Oh, Alek", disse a si mesma, segurando contra o peito uma fotografia da av, "haver uma soluo para o nosso caso?"
Seu corao respondeu "sim". Mas no era sua a voz, nem a de Alek, mas a de Ruth.
No dia do funeral Jlia vestiu-se de preto para comparecer  cerimnia religiosa. Deu graas a Deus por Jeffrey e Alek terem cuidado de tudo. Ela j no conseguia dormir por algumas noites e a fadiga comeava a mostrar sinais em seu rosto.
Fizera questo de voltar tarde para casa cada dia, embora sabendo que Alek a esperava. Ia depressa ao quarto dizendo que estava exausta e que queria ficar s.
Cometera erro grave expulsando Alek de sua cama. Passara as ltimas duas noites desejando que ele estivesse a seu lado e maldisse seu tolo orgulho que a impedia de cham-lo. Mas receava pedir-lhe de novo que a amasse, e receber como resposta uma recusa. Dessa vez, no aceitaria um "no".
Uma limusine deixou Jlia, Jerry e Alek na porta da igreja metodista que Ruth frequentara em vida. Algumas pessoas amigas se aglomeravam na calada, aguardando a chegada da famlia. Jlia passou o olhar pelo grupo, e parou de repente, estarrecida.
L estava Roger Stanhope.

CAPITULO VIII

Jlia hesitou. Estava com um p na calada, outro  no carro, e achou que ia desmaiar. Roger ousara ir  cerimnia do funeral de sua av?! O homem no tinha o mnimo senso de decncia; mas isso no a surpreendia.
Embora Alek no soubesse o que estava se passando, segurou-a pela cintura e ajudou-a a descer do carro.
	Preciso... me sentar  ela disse.
	Naturalmente.  Ele levou-a para o vestbulo o templo.
	O que houve de errado?  Jerry perguntou  irm.
	Quero gua. Algum pode me arranjar um copo d'gua?  ela pediu.
Como Roger ousara comparecer? Fizera isso de propsito para perturb-la, e conseguira. Ela nunca se sentira to perto do desmaio. Nem mesmo no dia em que seu pai morrera...
De sbito, Jerry deparou com o antigo empregado e encheu-se de dio.
	Voc o viu, no?  perguntou  irm.
	Vi.
	Vou expuls-lo daqui.
	No faa isso.  Ela achou que Roger no valia o esforo.  Tentamos tanto ter contato com ele depois do incndio, lembra-se, Jerry?
	Jamais me esquecerei.
	Quem poderia acreditar que Roger acabaria vindo a ter conosco espontaneamente?
Alek ouviu a conversa. Manteve-se quieto por algum tempo e depois sugeriu:
	Mostrem-me esse homem. Vou for-lo a sair deste lugar.
	No, Alek, no se d ao trabalho  Jlia interveio prontamente.  Roger no tem mais poder algum sobre mim.
	No se iluda, Jlia  Jerry preveniu-a.  Ele possui algum plano em mente.
.  Quanto a isso no tenho a menor dvida.  Ela conhecia os mtodos de Roger muito bem.
O culto religioso teve incio. Vrias vezes durante a cerimnia Jlia quis chorar, mas esforou-se por manter a calma. Apertava a mo de Alek e apreciou mais que nunca t-lo junto a si. A presena dele dava-lhe as foras de que necessitava para dizer adeus  mulher que tanto amara.
Da igreja dirigiram-se ao cemitrio onde Ruth foi sepultada, ao lado de seu amado Louis.
Jlia surpreendeu-se com o grande nmero de pessoas que compareceu ao funeral. O pastor fez um sermo comovente e leu a Bblia.
Alek, percebendo o estado emocional de Jlia, passou o brao em volta dos ombros dela.
Os presentes reuniram-se depois na casa de Ruth. Charles, o mordomo, que trabalhava na famlia h anos, insistira nisso e uma refeio variada foi servida.
Jerry e Jlia ficaram na porta recebendo os amigos.
Mais tarde, enquanto Jlia servia o caf, Roger aproximou-se, dizendo:
	Al Jlia.
Ele com certeza entrara pela porta dos fundos.
	Al, Roger.
	Senti muito a morte de sua av.
	Obrigada.
	Jlia, Jlia.  ele suspirou.  No acha que est na hora de esquecermos o passado? Quantas vezes mais preciso te dizer que houve um terrvel engano?
	Sei que no houve engano nenhum. Agora, se me d licena, tenho de cuidar de meus amigos.
Roger agarrou-lhe o brao. Jlia sentiu-se to nauseada com o contato que no conseguiu entender como, um dia, se apaixonara por aquele homem.
	Sugiro que largue o brao de minha mulher.  As palavras de Alek soaram como marteladas.
Roger tentou ignorar a ameaa.
	Faa o que ele disse  Jlia aconselhou-o.
Roger largou o brao, mas com uma observao mordaz: 
	Ouvi falar que voc havia se casado, mas por que com um russo? Julguei que fosse suficientemente esperta para no se envolver com qualquer estrangeiro.
Jlia no se dignou resporder. Apenas apresentou os dois homens.
	Roger Stanhope, este  meu marido, Aleksandr Berinski.
	Ah!  Roger sorriu.  No primeiro instante pensei que fosse seu guarda-costas.
	E sou  Alek respondeu.  Toque em minha mulher de novo e te mostrarei o quanto di um brao quebrado.
	Gostaria de te convidar para almoar comigo, Jlia Roger ainda ousou sugerir.  Conversaremos sobre os velhos tempos.
	Jia! E que tal convidarmos o policial que investigou sobre o incndio da fbrica?
	Jlia no almoar com voc  Alek declarou firmemente.
	Sinto muito, Roger, mas meu marido  ciumento. No posso aceitar seu convite.
	Jlia, meu amor, est na hora de esclarecermos muitas coisas  Roger insistiu.
	Tudo j est mais do que claro  Alek declarou.  Talvez seja interessante que eu te mostre o caminho da porta.
	Eu...  Jlia no pde ver o que Alek fazia, mas Roger arregalou os olhos, inclinou o corpo para a frente, e gaguejou:  Tudo... bem, vou-me embora.
Ele alisou os punhos da camisa branca engomada, e se foi.
	Isso no era necessrio  Jlia comentou com o marido.
	Talvez, mas tive grande prazer no que fiz.
	Eu tambm tive.
	Agora, Jlia, fale-me sobre esse homem. Ainda o ama?
	Qualquer outro dia te contarei tudo.
	Mas logo  Alek pediu.  Um marido precisa saber dessas coisas.
	Eu te contarei sobre Roger depois que voc me contar sobre as mulheres de sua vida.
	Nunca houve nenhuma como voc, querida.
As visitas comearam a se retirar. Jlia, Alek e Jerry insistiram em ajudar Charles na arrumao da casa.
To logo Jlia e Alek entraram no apartamento, este disse  mulher:
	Sente-se, vou preparar um ch para voc.
	Que bom! Ela tirou os sapatos e acomodou-se numa poltrona.
Minutos mais tarde Alek entrava com o ch. Sentou-se ao lado da esposa.
	Acho que nunca me acostumarei sem minha av  Jlia sussurrou.  Ela deixou um vazio to grande!
	D tempo ao tempo, querida.
Jlia olhou para o marido e viu-se presa de estranha emoo. Seria amor? Talvez. Essa ideia assustou-a mas a verdade era que, com Alek, sentia segurana.
Ele fora to bom durante a doena de Ruth! E isso apesar de   ter razes mil para desprez-la.
	Quando foi a ltima vez que voc comeu?  Alek perguntou, inesperadamente.
	No me lembro.
	No provou nada na casa de sua av. Eu vi.
	No?
	No  Alek confirmou.  Eu estava te observando o tempo inteiro. Cuidou de todos menos de si prpria. Vou preparar alguma coisa para voc.
	Alek, por favor, no precisa se incomodar.
	E um prazer. Venha para a cozinha comigo, pode aprender alguma coisa.
Relaxada agora, Jlia sorriu.
	Voc no faz isso com frequncia  Alek disse, beijando-a.
	Isso o qu?
	No sorri quase.
	No tive muitas razes ultimamente.
	Mas tudo vai mudar daqui por diante, vai ver.
Jlia apoiou o queijo nas mos e a tristeza que a acompanhava por semanas pareceu desaparecer.
	Sabe  disse , concordo com voc.
	Anna me falou algo ontem de manh. Achei que ela estava certa.
	Gosto muito de Anna.
	E ela retribui sua afeio. Mas disse-me que voc tinha razo em no permitir que fizssemos amor porque eu no te amava como deveria.
Jlia sentia-se embaraada com o rumo da conversa. E Alek confessou:
	Quando nos casamos eu no te amava tanto como agora.
E voc tambm no me amava. Acertei?
	 verdade.
	Mas agora te amo muito, querida.
	Oh, Alek...
	Isso te entristece?
	Me assusta. Quero te amar, Alek... Acho que j te amo, mas no tenho confiana em mim.
	Por causa daquele homem de hoje?
	Roger? E, por causa dele.
	Mas no sou esse homem, Jlia.
	Eu sei.  Racionalmente ela sabia, mas seu corao tinha dificuldade em aceitar a diferena existente entre os dois.

Alek abraou-a e Jlia se deu conta, alis no pela primeira vez, da beleza interior do marido, e no apenas da beleza fsica. Sim, Alek no deixava de ser atraente, mas isso no era o que a impressionava acima de tudo. Via nele o homem que a ajudara e a confortara na doena e morte da av. O homem que cantara para ela dormir. O homem que recusara tirar vantagem quando lhe pedira que fizessem amor.
	Eu te amo  Alek murmurou, beijando-a.
	Eu tambm te amo.
Ele agarrou-a pela cintura e ergueu-a, carregando-a para o quarto. Beijava-a o tempo todo.
O toque daquelas mos trouxe de volta  vida o desejo adormecido em Jlia por anos.
Dessa vez Alek levou-a para o quarto de casal. Beijava-a com ardor, despertando mistrios sensuais com seus lbios e lngua. Com as pernas segurou-a na cama.
	Voc  to linda, Jlia! Me enlouquece.
	Ento me ame  ela pediu, abraando-o. Sentia-se segura no apenas com Alek, mas consigo mesma agora.
	Te amarei sempre, querida.
Ele despiu-a. Acariciou-lhe as coxas, as ndegas, as costas.
	 to suave, querida!
	E voc  rijo como ao.
	Percebeu?
	Claro!
Alek acariciou-lhe o ventre. No falou nada mas Jlia imaginou que ele pensava com antecipao nos filhos que teriam.
A mo de Alek deslizou mais para baixo, at o portal macio da feminilidade. Hesitou por segundos, e testou a umidade antes de penetrar com o dedo no calor interno.
	Querido!  Jlia no sabia bem o que desejava, mas sabia que desejava algo, e sua necessidade era desesperadora.
Abraou-o e beijou-o com fome. Ao se mover, seus seios roaram o corpo de Alek e os mamilos intumescidos apunhala
ram-lhe o trax.
Alek posicionou-se em cima dela. Jlia abriu as pernas, recebendo-o com prazer. Abriu-lhe o corpo e o corao, abriu-lhe a vida.
Ele ento agarrou-a pelas ndegas, erguendo-as do colcho.
Um orgasmo violento explodiu em segundos. Alek, em seu arrebatamento, sussurrava o nome dela.
A respirao de ambos seguia o mesmo ritmo. Nenhum dos dois falava. Alek beijava-a e Jlia chorava. Eram lgrimas de alegria. Sua temporada de sofrimento passara, como predissera Ruth. Ela encontrava enfim a felicidade em Alek.
Os ltimos trs anos de sua vida haviam sido um pesadelo. Nos braos do marido, beijada, satisfeita sexualmente, o pesadelo desaparecera. Sentia-se completa mais uma vez por causa de Alek. Completa! Amada e amando.
	Eu te amo  ela murmurou.  Obrigada, muito obrigada.
Alek respondeu no prprio idioma, e Jlia concluiu que tambm agradecia.
Adormeceram, um nos braos do outro.
Ela acordou primeiro, faminta e ainda desejosa de amar. Passou a lngua em torno dos lbios de Alek que despertou imediatamente.
	Que delicia!  disse.
	Estava acordado?
	No, acordei agora.
	Estou com fome. Vamos encomendar nosso jantar?
	Eu pretendia cozinhar para ns dois, lembra-se?  Ele sorriu.
	Acho que devia conservar suas energias para mais tarde  Jlia aconselhou, com um sorriso brejeiro.
As chamas da lareira esquentavam a sala. Deitados no carpete, com uma caixa de pizza ao lado, comiam vagarosamente. Alek encontrara uma garrafa de vinho e enchera dois copos.
	Voc est muito quieta  ele comentou.  Arrependida?
	De forma alguma.
	Nem eu. Ainda com fome, querida?
	No, e voc?
	Receio que sim.
Pelo tom malicioso da voz, Jlia entendeu que ele no se referia  comida. Fitando os olhos escuros do marido, caoou:
	Tenho a impresso de que despertei um monstro.
	E importa-se com isso?
	No  ela respondeu, tirando o penhoar.  No importo a mnima.
O telefone tocou.
	Deixe que toque  Jlia sugeriu.
	Mas pode ser importante. Eu atendo.
Alek apanhou o fone.
	Al, Jerry. Sim, ela est aqui.
Jlia j havia enfiado a mo por dentro do short do marido e acariciava o pnis ereto. Alek segurou-lhe o pulso, e disse:
	 para voc.
	Eu sei,  claro que  para mim.
	O telefonema, Jlia, no o que est pensando.
Ela atendeu.

	Al, Jerry. Voc me telefonou em m hora. Importa-se s eu te ligar daqui a dez minutos?
	Ah... Tudo bem.
	Obrigada.
	Algum problema?  Alek perguntou.
	Acho que sim. E deve ser importante; Jerry pareceu desapontado porque eu no quis ouvi-lo agora.
Alek afagou-lhe um seio. Jlia gemeu quando ele comeou a contornar o mamilo com o polegar.
Quarenta minutos se passaram at ela dar o retorno ao telefonema do irmo.
	Al, Jerry, desculpe a demora.
	 bom mesmo pedir desculpas. O que est acontecendo por a? Tentei ligar de novo durante os ltimos quinze minutos e tudo o que obtive foi um sinal de ocupado.
	Sinto muito, mas estvamos ocupados. 
	Ah... entendo... E como vai sua vida de casada? Melhor, no?
	Muito melhor...  Jlia ficou sem jeito ao comentar sua vida matrimonial.  Mas acho que voc tem algo importante a me comunicar.
	Tenho.  sobre Roger.
Ela engoliu em seco. Ser que nunca se livraria daquele homem?
	O que ele quer agora?
	Eu no te disse que Roger tinha qualquer coisa em mente quando apareceu no funeral?
	Ns dois sabemos que no foi por considerao.
	Um amigo meu telefonou dizendo que ele fez muitas perguntas acerca das tintas Phoenix.
Uma onda fria percorreu o corpo de Jlia. H trs anos atrs ela fornecera a Roger a frmula das tintas com durao de trinta anos. Um ms antes de os produtos serem postos no mercado a fbrica pegou fogo. Trs semanas mais tarde Roger deixava a firma e a Tintas Ideal, competidora de Conrad, vendia o novo produto.
	Dobre a segurana da fbrica  Jlia sugeriu.
	J fiz isso.
	Com que empregado de nossa firma Roger tem mantido contato?  Jlia no podia consentir em ser roubada mais uma vez.
	No tenho ideia.
	No pensa que deveramos pr um detetive particular?
	Para qu?
	Para grampear os telefones da fbrica, Jerry. Para descobrir se Roger est conseguindo informaes atravs de nossos funcionrios. Que acha?
	Francamente, no sei o que acho. Tudo isto me parece uma loucura.  como um pesadelo que se repete. Quando Alek pensa que os produtos estaro no mercado?
	Logo. Ele tem trabalhado muitas horas por dia ultimamente.
	Acho que precisamos nos apressar para isso. Vou ver se consigo um encontro com os revendedores. Quanto mais depressa pusermos nosso produtos nas prateleiras das lojas, tanto melhor.
	OK. Mantenha-me informada, por favor, Jerry  ela pediu.
	Faiei isso.
Os dois irmos trocaram mais algumas palavras e, quando Jlia desligou o telefone, suspirou.
	O que houve?  Alek quis saber.
Ela sacudiu a cabea. No tinha vontade de explicar nada, porque a explicao envolveria contar a Alek seu relacionamento com Roger. E era algo que preferia evitar.
	Essas rugas  ele passou o dedo pela testa da esposa  so por causa de Roger Stanhope, no so, meu amor?
	So.
	Foi o que pensei. Fale-me sobre ele, Jlia. Est na hora de eu saber. Concorda?

CAPTULO IX

Jlia!  Alek chamou-lhe a ateno quando viu que ela no respondia.
	Roger  um homem que eu conheci um dia, h vrios anos atrs, em quem tive confiana... E ele provou no ser confivel. Chega isso?
	Voc o amou?
Admitir que o amara machucaria seu orgulho, Jlia pensou. E o nico crime que cometera fora amar um homem que no a merecia. Ura homem que a usara, e que a chocara com uma traio. Contudo, resolveu confessar:
	Sim, eu o amei. E foi um erro, um terrvel erro. Mas aprendi uma lio.
	Que lio, Jlia?
	Que o amor s vezes.., machuca.
	No  sempre que o amor traz sofrimento, querida. Meu amor por voc provar o contrrio. Venha. Est na hora de irmos  cama.
	Mas...  Jlia apontou para o carpete onde haviam feito amor h to pouco tempo.  Aleksandr!
	Querida, eu te preveni que era um homem faminto. E voc merece esse castigo por ter me conservado em jejum por tantas semanas.
De madrugada Alek acordou repentinamente. O luar danava nas paredes do quarto silencioso e ele no podia entender o que o fizera despertar.
Sentia-se exausto mas feliz. Jlia dormia ao lado, o corpo colado ao seu. Conquist-la fora difcil, mas valera a pena. O prmio era de um valor inestimvel.
Quisera lhe perguntar mais sobre Roger Stanhope, mas vira angstia em seu olhar e desistira.
Sabia muito pouco sobre aquele homem, mas com o pouco que sabia concluiu que no gostava dele. No gostou do modo como Roger olhara para Jlia no dia do funeral, como se tivesse certeza de que a conquistaria de novo com palavras persuasivas.
Stanhope era um fraco, Alek viu logo. Tinha atrao fsica, sorriso convincente, personalidade irresistvel, mas nada de honestidade, inteligncia ou tino para negcios.
Jlia no explicara em detalhes o telefonema de Jerry. Contudo, os pequenos pedaos de conversa que ouvira, foram suficientes para convenc-lo de que sua mulher estava preocupada. E, como marido, faria o possvel para que Roger no as aproximasse dela nunca mais.
Quando Jlia acordou viu que Alek no estava mais na cama. Olhou para o relgio. Lembrou-se ento de que a ltima vez em que dormira at dez horas era uma adolescente.
Sentiu falta nele, mas sorriu de satisfao. Casara-se com um verdadeiro homem, um homem que fazia amor com a mesma energia e entusiasmo com que trabalhava.
Ela levantou-se e vestiu-se com simplicidade. Era sbado e no iria  fbrica. Foi para a cozinha. Anna estava l, ocupada em fazer um bolo.
	Bom dia, Anna.
	Bom dia.  Anna apressou-se em servir o caf.
	Eu posso fazer isso  Jlia protestou.  Continue com seu trabalho, Anna.
	Alek me pediu que fizesse um bolo para o piquenique.
	O piquenique? Que piquenique?  Jlia indagou.
	Meu irmo deixou um recado para que eu preparasse uma cesta com comida. A lista  longa, acho que ele no planeja voltar logo.
	Onde est Alek agora? Voc sabe?
	No. Ele no me conta muito sobre seus afazeres. Afinal, sou apenas a irm.
	Eu sou apenas a mulher; no sei muito tambm.
	No se preocupe, Jlia, Alek deve voltar logo, e me preveniu para no te acordar.  Aps uma pausa, Anna acrescentou:  Senti muito a morte de sua av.
	Obrigada.
Sentando-se  mesa da cozinha, Jlia se concentrou no jornal.
Assim que Alek chegou ele correu para beij-la, os olhos cheios de amor. Depois disse  irm:
	Tire um dia de folga hoje, Anna.
Na sala, Alek fez Jlia sentar em seu colo e perguntou:
	Dormiu at tarde, querida?
	At tarde demais. Voc devia ter me acordado.
	Fiquei tentado. Mas de amanh em diante no terei mais escrpulos em te acordar no meio da noite, como qualquer marido tem direito.
	Mesmo?  Jlia achou que seu corao ia estourar de alegria.   verdade que vamos fazer um piquenique, Alek?
	Onde?
	Surpresa. Pegue um suter, e...  Ele hesitou.  ... uma pipa.
	Uma pipa? Daquelas que os meninos gostam de empinar no cu?
	.
	Alek, vamos  praia?
	Sim, meu amor, vamos  praia.
Quinze minutos mais tarde seguiam rumo ao mar. A cesta do piquenique estava no banco traseiro juntamente com roupas para ambos, toalhas, um cobertor e cinco tipos de pipas.
De longe j se ouvia o ronco das ondas. O cheiro de sal permeava o ar. O sol brilhava na areia e as gaivotas esperavam uma oportunidade para encontrar alimento na superfcie das guas.
Alek estacionou o carro num lugar calmo, deserto. Estendeu o cobertor na praia. Jlia tirou os sapatos e comeou a andar na orla do mar, seguida por Alek.
	Isto  perfeito!  ela exclamou.  Adoro a praia. Tudo  to calmo aqui!
	Achei que voc iria gostar, meu amor. Minha me sempre nos levava, a mim e a Anna, ao mar Bltico, depois que meu pai morreu.
	Quantos anos voc tinha quando ele morreu?
	Dez. E Anna sete.
	Como ele morreu?
	Foi assassinado. Duvido que um dia saberemos a verdadeira razo. Alguns soldados apareceram em casa no meio da noite. Estvamos todos dormindo. Acordei com os gritos de minha me e, quando me levantei, meu pai j estava morto.
	Oh, Alek!  Jlia sentiu um n na garganta, e fez esforo para no chorar.

	Soubemos mais tarde, por uma pessoa que arriscou a vida nos contando, que a KGB suspeitara que meu pai tinha atividades ilegais. Mas isso no fazia sentido porque ele era qumico de profisso e um comunista convicto.
	Se o governo suspeitou de seu pai, por que no deu a ele a chance de se defender num tribunal? O que fizeram foi brbaro.
	Sem dvida  Alek concordou.  E quase matou minha  me. No fosse por Anna e por mim, acho que ela teria morrido. No pelas mos dos soldados, embora no duvide que eles fizessem isso, mas de dor.
	Que houve depois?
	Minha me precisou trabalhar para nos manter. Eu era bom aluno, por isso tive chance de estudar na universidade. Foi l que encontrei o primeiro americano. Encantei-me com a liberdade existente nos Estados Unidos e aprendi ingls relativamente depressa. Depois conheci Jerry e ele me deu muitos livros em ingls. Foi o incio de minha ligao com este pas.
	Ficou surpreendido quando Jerry te convidou para trabalhar na Indstria Conrad?
	Fiquei.
	Jerry te falou sobre a linda irm?  Jlia deu uma gargalhada.
	De passagem.
	Voc ficou curioso a meu respeito?
	No  Alek respondeu sem hesitar.  Ficarei mais curioso daqui por diante.
	Bom.
Ele enfiou a mo por baixo da blusa de Jlia.
	Alek!
	S quero saber quanto tempo leva para voc me desejar.
	Muito pouco. Agora pare, estamos numa praia pblica.
	Talvez seja interessante alugarmos um quarto num motel.
	Podemos fazer amor em casa, Alek. O dia est lindo, vamos aproveitar a praia.
	Tenha confiana em mim, Jlia, ser muito bom pegarmos um quarto num motel.
Sorrindo, ela declarou:
	Ningum me preveniu que voc era um manaco sexual.
	Nem eu sabia disso, querida. A culpa  s sua.
	Prometo que satisfarei seu desejo carnal assim que chegarmos em casa. E sou uma mulher de palavra, sempre cumpro com minhas promessas.
	Preciso parar de ser egosta.  Alek ficou subitamente srio.  No trouxe voc aqui para fazer amor, mas para cicatrizar suas feridas. Depois que meu pai morreu, minha me nos levava, a mim e a Anna,  praia. O mar nos curou.
Espero que o mesmo acontea com voc.
	Vai acontecer.  Jlia afirmou, olhando para as ondas.
	Perdoe-me por ser to guloso.
	S se voc me perdoar por ser gulosa tambm.
	Agora sente-se, relaxe em meus braos e feche os olhos. Alek aguardou uns segundos.  Fechou?
	Fechei.
Os sons que chegavam aos ouvidos de Jlia eram incrveis: o rudo das guas do mar batendo na praia, o canto dos pssaros, o barulho dos barcos a vela passando bem perto, roando a areia. O aroma trazido pelo vento era acre.
	Agora abra os olhos  Alek ordenou.
Jlia obedeceu e encantou-se com a variedade do colorido. O cu estava mais azul, com algumas nuvens brancas como a neve; a gua tinha um tom esverdeado, e as ondas deixavam atrs de si um rastro prateado. Ela mal podia crer na beleza do cenrio.
	Oh, Alek, que maravilha!
	Minha me fazia isso para mim e para Anna. E assim pudemos ver que a vida pode ser boa quando olhamos para o mundo em vez de para o nosso interior.
Exatamente era isso que Jlia vinha fazendo nos ltimos anos; olhava para dentro de si e com um microscpio. No seria de admirar que tivesse sido to infeliz.
	Alek  ela sussurrou, surpreendida com a descoberta , obrigada, muito obrigada por me ter ajudado tanto!
Eles se beijaram e o amor de Alek foi uma compensao por tudo de mal que lhe acontecera antes e pelo que viria a acontecer no futuro. Jlia chorou; eram lgrimas de alvio.
Alek constatou que seu relacionamento com ela comeou a mudar depois daquela tarde na praia. De maneira quase imperceptvel, foi ficando diferente. Mais aberto, mais autntico.
No dia seguinte,  noite, ele precisou voltar ao laboratrio da fbrica. Comunicou  Jlia e ela ofereceu-se para lev-lo em seu carro, como se ficar separada do marido por algumas horas representasse grande sacrifcio.
Esse desejo dela tomou-o de surpresa.
	Tem certeza de que quer ir?  perguntou.
	Claro.  bom para mim sair um pouco.
Eles ouviram msica clssica durante o trajeto. Na fbrica havia seguranas por toda a parte, Alek notou, mas no deu
muita importncia ao fato. Foi ao laboratorio, pegou o que desejava, e voltaram Para casa.
	Quer tomar um caf? - ele Perguntou.
	Quero.
Sentaram-se depois na sala, saboreando o caf. Alek lia o ltimo relatrio sobre  suas experincias enquanto Julia absorvia-se na leitura de uma novela; EIe no se lembrava do dia em que Jlia voluntariamente ficara sentada,  quieta.  Estava sempre fazendo alguma coisa,  entrevistando pessoas ou indo de uma sala a outra nos escritrios da Industria.
	No estou muito ansiosa em voltar ao trabalho amanh - ela disse, dando um suspiro. - Estes dois ltimos dias foram to relaxantes! No me sinto pronta para enfrentar o trabalho de novo.
	Pretende trabalhar Para sempre, Jlia?
	No...sei. no pensei ainda no caso. Suponho que ate chegarem os filhos. Porm mesmo assim acho que gostaria de ficar a par do movimento da fabrica, ainda que de longe.
	No se impor de ter filhos?
	Claro que no.  Voc Pensou que sim?
	No tinha muita certeza.
	Ento sossegue, meu amante russo- Nossos filhos sero bem-vindos.
	Quer ento constituir uma famha - ele declarou, com um suspiro de alvio - E que tal trabalharmos em nosso
projeto familiar logo?
	Quanto logo?
	J. Alek comeou a desabotoar a blusa dela.  Jlia, meu amor, pode ver o que fez comigo?  Por acaso uma bruxa
que me enfeitiou?
	Se alguem foi enfeitiado, esse algum sou eu. Sinto-me s sem sua presena, perdida, vazia. Pensei que nunca amaria de novo e voc me mostrou o caminho do amor.
Alek colocou as mos nos seios dela. Devagar, Jlia inclinou-se para trs, oferecendo-lhe os mamilos rgidos.
	Jlia!  Alek beijou-os, um beijo que revelou toda sua necessidade.
O livro que ela lia caiu no cho, mas nenhum dos dois se deu ao trabalho de apanh-lo.
	Que acha de irmos para a cama?  Jlia sugeriu.
	Para a cama?  ele caoou.  E onde est seu esprito de inovao, de aventura?
	J fizemos uso dele esta manh, no banho. Saiba que levei vinte minutos para enxugar o cho do banheiro.
Alek carregou-a para o quarto e a ps na cama. Jlia mal teve tempo de se despir antes de ser possuda.
	No conheo nada to bom quanto isto  ela confessou, contornando-lhe o pescoo com os braos e fazendo com que seus seios ardentes crestassem o trax de Alek.
Depois eles permaneceram deitados por longo tempo, beijando-se de quando em vez. Alek nunca fora to feliz na vida, e isso o assustava. A felicidade que conhecera sempre fora to passageira! Fechou os olhos e no pde imaginar uma existncia sem Jlia. Seria vazia, concluiu.
Deitada ao lado do marido ela suspirou, completamente feliz. Jamais conhecera um homem como Alek. Vivia um perodo de paz e de descobertas. O assunto dos filhos a fez lembrar de sonhos j h muito abafados.
Mas.., nenhum dos dois se preocupara em se proteger. Nem mesmo uma nica vez.
Grvida? Possvel?
Aps tantos anos de sofrimento, Jlia no sabia como lidar com a felicidade. Duraria para sempre? Vivera por algum tempo feliz com Roger, e tudo rura de repente. A dor da decepo jamais a abandonaria. Porm, o progresso da Indstria Conrad consistia em sua vingana. E, mais ainda, ningum empregaria Roger, excetuando-se talvez a Tintas Ideal. Depois do que houvera, pessoa alguma confiaria nele.
Jlia sorriu de prazer.
	De que est rindo?  Alek perguntou.
	Ahn... de nada.
	Sua resposta  muito vaga, Jlia.
	Voc est com sono?
	Por que pergunta? Tem alguma coisa em mente?
	No tenho, mas com certeza voc tem. E estou querendo dormir. - Jlia sorriu mais uma vez.
	Ento sugiro que pare de mexer com os quadris.
	Sinto muito, eu no estava consciente do que fazia.
	No sinta.  bom...
Jlia fechou os olhos e continuou sonhando com filhos. Contudo, um bebe viraria seu mundo de pernas para o ar. E se sua habilidade em criar filhos fosse do mesmo nvel de sua arte em cozinhar, ento ela...
	Agora est com a testa franzida. O que houve, Jlia?
	Eu... pensava que no serei uma boa me. No conheo nada sobre bebs. No sei nem mesmo remendar uma roupa.
Alek segurou-lhe a cabea e beijou-a.
	Vai ser uma excelente me, amor. Aprenderemos as coisas juntos quando chegar a hora. Concorda?
	No que se refere a negcios, entendo de tudo, mas como me, tenho c minhas dvidas.
	Oua, mulher, desse jeito no conseguiremos dormir.
Pelo que vejo, s h um meio de te conservar calada.
Com ambos os braos ele agarrou-a pela cintura, a fez deitar de costas e beijou-lhe os lbios at que ela prometesse no falar mais.
Na segunda-feira pela manh Jlia chegou no escritrio muito cedo e muito contente. Virgnia, a secretria, apareceu logo depois.
	Desculpe eu ter me atrasado, mas no sabia que voc viria to cedo  ela disse.  Vou providenciar um caf.
	No se preocupe, Virgnia.
	Jerry telefonou dizendo que estar aqui em poucos minutos. E seu marido sugeriu que voc o encontrasse ao meio-dia no Freeway Park.
	Muito bem  Jlia respondeu.
Logo Jerry entrou na sala, dizendo:
	Ando preocupado com Stanhope. Acho que o rapaz est preparando qualquer coisa. Um investigador particular o segue constantemente, portanto, se ele mantiver contato com um de nossos empregados, saberemos de pronto.
	Duvido que qualquer de nossos homens nos traia. E voc?
	No sei, no. Depois do que aconteceu na ltima vez, no garanto nada.
	Conte-me tudo o que souber.
	Sem dvida, Jlia. O investigador me apresenta relatrios dirios.
Jerry retirou-se e Jlia ocupou-se da correspondncia. Perto do meio-dia apanhou a bolsa e disse  secretria:
	Continuaremos com nosso trabalho depois do almoo.
Provavelmente no estarei de volta antes da uma. Cuide dos problemas que surgirem nesse meio tempo, por favor, Virgnia.
	Naturalmente.
Virgnia levantou-se tambm e Jlia percebeu que a moa a fitava com curiosidade. Achando aquilo estranho, perguntou:
	O que foi?
	Nada de errado.
	Ento?
-  que nunca vi voc to feliz, Jlia.

CAPITULO X

Freeway Park representava uma das ideias mais inovadoras em parques. Era uma enorme rea gramada, situada no topo de uma via expressa. Heras verdejantes pendiam das laterais de concreto at a estrada bem abaixo.
Na hora do almoo funcionrios de escritrios da cidade convergiam ao local a fim de usufruir uma refeio ao ar livre. Durante o vero havia concertos. Jlia no tinha certeza se teriam o prazer de ouvir msica naquele dia, mas nada poderia faz-la mais feliz que encontrar o marido l.
Alek no trabalhara na fbrica pela manh, mas num galpo retirado da cidade. Porm chegou ao local na hora marcada e foi ao encontro dela de braos abertos.
	Trouxe alguma coisa para nosso almoo?  ele per guntou, aps beij-la.
	Ah, no, esqueci. - Comida era a ltima coisa em que Jlia pensava.
	Imaginei. Por sorte voc tem um marido que conhece a mulher com quem se casou. Venha, vamos procurar um banco para sentarmos.
	O que voc comprou?
    Frango e batata frita.
	Jia!
Jlia estava com fome, o que era uma raridade. Em geral comia para viver, nunca por prazer. Porm Anna comeava a mudar esse comportamento. Ela preparava pratos deliciosos e Jlia achava que, at o fim do ano, estaria gorda e... grvida. A ltima possibilidade a entusiasmava. Sentaram-se e Alek abriu o pacote.
	Est querendo me engordar?  ela brincou.
	J me conhece bem, no?
	Sem dvida.
	Porm o importante  saber se gosta de mim, Jlia.
	Cada dia mais.
Um frenesi percorreu a espinha de Alek.
	No vai trabalhar at tarde hoje, vai?  ele quis saber.
	No. E voc?
	Planejei chegar em casa s cinco e meia.
	Assim to cedo?  Jlia geralmente nunca saa do escritrio antes das seis.
	Terei sorte se conseguir esperar at cinco horas  Alek sussurrou, e seu olhar faminto no tinha nada a ver com o frango e a batata frita.
No se podia duvidar o que ele tinha em mente. Jlia ficou aturdida. Nunca se considerara uma mulher sensual, mas naquele instante reconheceu que havia necessidade de fazer qualquer coisa para acalmar o desejo urgente de fazer amor com o marido.
	Alek... me beije.
Ele baixou a cabea e roou os lbios nos de Jlia. Mas no era isso que ela queria. Com a lngua provocou-o. Alek gemeu e o beijo tornou-se logo violento, vido.
	s cinco e meia  ela disse, assim que pde falar.
	Estarei te esperando  Alek respondeu.
Os dois voltaram juntos para a fbrica.
Jerry esperava pela irm na sala que ela ocupava. Andava de um lado para o outro, como um animal enjaulado. Sem cumpriment-la e sem prembulos, anunciou:
	Roger fez contato com uma pessoa do laboratrio.
	Como voc sabe?

	O investigador que contratei, Rich Peck, informou. Ele grampeou telefones durante os ltimos dias.
	Como pde fazer isso?
	Jlia  Jerry disse, exasperado com a irm , como Rich grampeou os telefones, no importa. O importante  que algum da Indstria Conrad entrou em contato com Roger. E o telefone usado foi o do laboratrio.
	Mas, quem?
	Esse  o ponto. Pode ser grande numero de pessoas. O que tento te dizer  que temos um traidor dentro da fbrica.
Jlia achava difcil crer. A maioria dos empregados do laboratrio trabalhava na firma h anos e nenhum deles gostava de Roger. Depois do incndio, ela contratara-os todos de volta.
Portanto, descobrir que um funcionrio que trabalhava em sua fbrica a traa, era doloroso. E ela recusava aceitar.
	O que acha que devemos fazer?  Jerry perguntou.
	Nada. No vamos fazer nada.
	Mas...
	O que poderemos fazer?  Jlia perguntou, com impacincia.  Tudo o que sabemos  que algum entrou em contato com Roger. Nada mais.
	Talvez possamos pedir a Alek que...
	No! Alek  to suspeito quanto qualquer outro.
	No seja ridcula, Jlia. Alek  interessado como ns em preservar o segredo das tintas Phoenix.  a obra prima dele. Ps grande esforo no projeto e com certeza no vai nos trair.
	No sei, no. Roger tambm parecia ter muito interesse em que a Indstria Conrad prosperasse, e veja o que houve.
	Porm Alek...
	Alek  igualmente um suspeito  Jlia insistiu.  Mas cuidado, Jerry, no diga nenhuma palavra a ele por enquanto.
O irmo a fitava, como se a considerasse uma louca.
	Alek  seu marido, Jlia. Santo Deus, ho confia em seu prprio marido!
	Tem razo  ela admitiu , no confio. E graas a Roger. Eu no confiaria em minha prpria me depois da lio que Roger me deu. Se acha que sou uma criatura sem corao, continue achando. Prefiro que pense mal de mim a ver a fbrica destruda de novo.
Fazer amor com sua mulher era a sensao mais fabulosa que Alek j experimentara. Talvez por ela o ter evitado durante tanto tempo a conquista fora to preciosa. Jlia era uma pessoa aberta, honesta e autntica.
Alek jamais perdera o controle com qualquer outra mulher, apenas com Jlia, que estava se tornando to importante como o ar que respirava. Ele precisava de Jlia, e essa necessidade crescia de maneira alarmante. Fazia amor com ela e logo depois se perguntava quando seria a prxima vez.
Jlia era uma mulher excepcional porque cada vez dava mais de si mesma, mais de seu corao, mais de sua alma.
Ele olhou para o relgio. J passava da hora em que haviam combinado se encontrar. Conhecendo-a bem, imaginou que se engolfara no trabalho esquecendo-se de tudo.
Esperou outros dez minutos antes de pegar o telefone. Discou o nmero do escritrio e a secretria atendeu.
	Aqui  Alek. Jlia j saiu?
	No, ainda est aqui. Quer falar com ela?
	Sim, por favor.
	Al  Jlia disse, com indiferena.
	Sabe que horas so?
	Cinco e quarenta. Por qu?
	Tnhamos um encontro, lembra-se? Trouxe at um baralho comigo.
	Um baralho?
	Sim. Ouvi falar sobre um jogo muito popular nos Estados Unidos e desejo experimentar com voc.
	Ura jogo de cartas?
	. Parece ser interessante. Quanto tempo voc pretende ficar ainda no escritrio?
	Olhe, Alek, sinto muito, mas vou demorar mais uma ou duas horas.
	Entendo. Nosso jogo pode esperar e eu tambm.
Alek queria ouvir um pouco mais de amor nas palavras da mulher, ou talvez um pedido de desculpas. Mas nada.
Algo estava errado, e ficou sentido com o pouco o caso de Jlia. Ela escondia qualquer coisa, lera isso em sua voz.
Jlia s chegou em casa s nove horas. No sabia como encarar o marido.
Alek recebeu-a na porta. Sem uma palavra abraou-a e depois pediu:
	Conte-me o que te preocupa.
	O que faz voc pensar que alguma coisa me preocupa?
	Sou seu marido, Jlia. Conheo voc bem.
	Estou com muita dor de cabea. J jantou?
No, esperei por voc. Vamos?
	No tenho fome. Se no se importa, vou tomar um banho.
E retirou-se, no esperando pela resposta.
Alek aguardou at que ela terminasse, seguiu-a ao quarto e perguntou:
	Quer que eu faa uma massagem em suas tmporas?
	Faria isso para mim?
Alek surpreendeu-se com a pergunta.
	 claro que faria. Voc  meu amor, o alimento do sangue que corre em minhas veias. No h nada que eu no faa para te agradar.
	Oh, Alek  ela sussurrou.
	Estranho. Maridos americanos no amam suas mulheres assim?
	Eu... no sei. Nunca me casei antes, mas imagino que no. Maridos em geral no se prestam a essas coisas.
	Venha  ele disse, sentando-se na cama com as longas pernas estendidas.  Deite-se com a cabea nas minhas coxas e curarei sua dor num minuto. Quer que eu cante?
	Quero, por favor.
Jlia no entendia o sentido das palavras, mas amava o som meldico da voz de Alek. J estava dormindo quando a massagem terminou. Com muito cuidado ele levantou-se para sair do quarto. Foi quando Jlia se deu conta do quanto desejava que o marido ficasse.
	No v embora  suplicou.  Fique na cama comigo.
	OK, s por alguns minutos, ento.
Beijaram-se; os lbios de Alek pegavam fogo. Porm, meia hora mais tarde, ele disse:
	Vou-me embora agora.
	No!  ela pediu.
	Jlia, voc precisa entender, um homem que se preze...
	Entendo muito bem. Tem razo de estar magoado, mas confie em mim, Alek.
	Jlia, por favor...
	Voc curou minha dor, agora curarei a sua.
Ela abriu as pernas e deitou em cima do marido, entregando-se completamente. Logo os dois gemiam, encontrando alvio nos braos um do outro.
Alek fora sua salvao, Jlia refletia. Fizera desaparecer o sentido de abandono e de perda que a consumia. Amava-a como nenhum outro homem a amara. Era amvel, carinhoso.
Ela estava quase dormindo quando ouviu-o sussurrar:
"Espero que essa dor de cabea volte, e muito breve".
Jlia estava inquieta. No podia entender por que motivo no conseguia parar. No, no conseguia. Contudo, era bem natural ficar nervosa aps o telefonema daquela manh. Fazia dias j que Jerry contratara Rich Peck e o rapaz telefonara para apresentar o relatrio da semana. Como Jerry estava fora, ela concordou em receb-lo.
Virgnia anunciou a chegada do rapaz e Peck entrou no escritrio. Era alto, vigoroso, e bem mais jovem do que Jlia imaginara. Devia ter trinta anos, se tanto.
	Al  cumprimentou-a.
	Sente-se, por favor.
	Esse tal de Stanhope  o investigador comeou a falar   um rapaz interessante. Venho acompanhando os passos dele h uma semana e conclu que a informante  uma mulher.
	Acha que Roger desconfia que est sendo seguido?
	Penso que no. O homem no me parece muito esperto. E tudo prova que no tem posses pois soube que deve meses de aluguel e que no tem crdito na praa.
	E qual a posio de Roger junto s Tintas Ideal?  segura?  Jlia indagou.
	Quem pode saber ao certo? Pelo que ouvi dizer, ele tem bom emprego. Quanto ao que faz com o dinheiro, no sei. Por favor, senhora, olhe estas fotografias para ver se reconhece algum.
	Deixe seu lbum aqui para eu examinar com calma Jlia pediu.
	Na quarta-feira  Peck continuou , Stanhope esperava por algum na porta do restaurante Henshaw. A pessoa aguardada era um homem, que me deu a impresso de estar bastante irritado. Os dois trocaram algumas palavras do lado de fora do restaurante e receei que fosse haver agresso corporal. Tirei algumas fotos. Stanhope estava apavorado, e com razo. O agressor poderia reduzi-lo a p.
Jlia olhou as fotografias e quase desmaiou ao ver o rosto furioso de Alek. Isso chamou a ateno de Rich que perguntou:
	A senhora o reconhece? Sra. Conrad, trata-se de um empregado seu?
	Sim,  um empregado meu. Fez excelente trabalho, sr. Peck. Jerry entrar em contato com o senhor mais tarde, hoje mesmo. Acho que nosso mistrio est resolvido.
	Estarei sempre s suas ordens, senhora.
	Obrigada.
Jlia jogou-se numa cadeira assim que o investigador saiu. No, isso no podia estar acontecendo, no podia ser real. Virgnia entrou na sala.
	Oh, querida, sente-se bem?
	Estou bem, Virgnia.
	Deixe-me te ajudar. Por que no se deita um pouco?
	Quer, por favor, procurar meu irmo?  Jlia pediu.
	No prefere que telefone ao seu marido?
	No! Procure Jerry. Faa-o vir para c o mais depressa possvel.
Jlia estava desolada. Teria preferido que Alek a houvesse matado.
Jerry chegou vinte minutos mais tarde, dizendo:
	Virgnia me falou sobre uma emergncia.
	Eu... eu estava comeando a entrar em pnico.
	Voc est plida, minha irm.
Jlia mostrou-lhe a fotografia do marido.
	Alek?!  Jerry exclamou.
	Sem a menor dvida.
	Deve haver alguma explicao.
	Claro.
Jlia passara pela mesma situao antes, trs anos atrs. Ao acarear Roger, ele negara tudo, chocado por ela desconfiar de sua honestidade. Declarara-se inocente. Por am-lo tanto, Jlia desejara acreditar e ouvira-o. Agora ela amava Alek. Iria a histria se repetir?
	O que pretende fazer?  Jerry perguntou.
	No sei.
	No vai despedi-lo, no, Jlia?
	No sei ainda.
	Seria interessante falar com ele antes, dar-lhe uma oportunidade de se explicar. Talvez Alek tenha tido boas razes para se encontrar com Roger, nada tendo a ver com as tintas Pheonix.
	Jerry, voc no estava ainda com dez anos quando parou de acreditar em Papai Noel. Lembra-se? H apenas uma razo para Alek entrar em contato com Roger, e ns dois sabemos qual .

	Isso no faz sentido. Alek tem mais motivos para o sucesso das tintas Pheonix que qualquer outra pessoa. Por que sabotaria a si prprio? Ele levou anos fazendo pesquisas.
	Se espera por uma resposta, Jerry, no tenho nenhuma definitiva. Minha suposio  de que Alek procura por uma revanche.
	Revanche? Alek? Temos sido bons para ele, para com a famlia dele.
	Papai tambm foi bom para Roger, recorda-se? Foi ele quem deu a Roger o primeiro emprego.
	Vou falar com Alek  Jerry comunicou.  Quer ir comigo?
	No! Eu no poderia aguentar a mesma situao uma segunda vez. No posso crer que isto esteja acontecendo.
	Nem eu.
	Por que devo eu me apaixonar sempre pela pessoa errada?
Por. que, Jerry? H algo de errado comigo?
	No vamos nos precipitar, Jlia. Temos de ouvir as explicaes de Alek.
	Oua-as voc..., eu no posso. O caso de Roger se repete e eu....
	H um abismo de diferena entre os dois casos, Jlia.
Voc est casada com Alek!
	Tudo  um pouco mais complicado, mas no to diferente. At... que o problema se resolva,  melhor que Alek no venha trabalhar. Diga isso a ele por mim. "
- Jlia...
	Fale voc, Jerry, porque eu no posso. Por favor.
	Mas no vai ouvir as explicaes dele?
	No!
Jlia saiu do escritrio meia hora mais tarde. No queria voltar para casa; foi  Praa do Mercado. Caminhou por horas, tentando acalmar suas emoes. No queria chorar.
Escureceu e a rea por onde passeava no era apropriada para uma mulher frequentar sozinha. Apressou ao passo.
O porteiro de seu edifcio assustou-se quando a viu chegar to tarde. A subida pelo elevador pareceu-lhe levar uma eternidade. Logo teria de encarar o marido.
Mal enfiara a chave na fechadura a porta se abriu. Alek apareceu diante dela, e Jlia comparou-o a um pesadelo.

CAPITULO XI

Os sinais comprometedores apresentavam-se "evidentes em Alek, Jlia de deu conta, os mesmos de Roger ao ser acareado, a mesma indignao. O mesmo olhar furioso, como se estivesse sendo trado, como se a culpada fosse ela e no ele.
	Onde esteve at agora?  Alek perguntou.  Fiquei preocupado.
	Fui dar um passeio.
	Um passeio de cinco horas?
	Eu devia ter telefonado, desculpe, mas  que precisava pensar.
Ela foi para o quarto e Alek seguiu-a.
	Por que no veio falar comigo em vez de mandar Jerry?
 As palavras de Alek eram cheias de dor.  No pretendo negar que falei com Roger Stanhope, mas ao menos me d a chance de te explicar a razo.
	Claro, no pode negar o que ficou comprovado. E telefonou para Roger tambm, do laboratrio.
Se Alek ficou surpreendido, no o demonstrou. Apenas disse:
	Quis falar com Stanhope a fim de exigir que mantivesse distncia de voc. Nosso encontro no restaurante foi casual, ele chegava quando eu saa. Roger desafiou-me, dizendo que te teria de volta no momento em que quisesse. Falou outras coisas tambm que eu no ouso repetir. Ns quase nos engalfinhamos. Se no acredita em mim, pergunte ao homem que voc e Jerry contrataram para tirar as fotografias; ele contar o que aconteceu naquele dia.
Jlia queria acreditar no marido, mas tudo soava como um velho disco tocado de novo; e as lembranas que vieram  tona eram ntidas demais para serem ignoradas.
	Stanhope  repugnante  Alek prosseguiu.  No o quero perto de voc. Se pensa em me condenar por te proteger, sendo seu marido, tudo bem. Mas a verdade  que eu despedaaria meu corao antes de te magoar.
	Preciso refletir  Jlia sussurrou.
	Anna deixou seu jantar pronto.
	No tenho fome.
	Voc est muito magra, Jlia, precisa comer!
No querendo contrariar o marido, ela foi  cozinha e tirou um prato do forno. Apesar de no ter sido preparado na hora, o jantar estava delicioso. Assim que terminou foi ao quarto de casal onde Alek a aguardava.
Na manh seguinte Jlia acordou ao som das vozes de Alek e Anna discutindo na cozinha. Falavam em voz alta, em russo, e Anna parecia aborrecida.
Jlia foi  cozinha e notou que a cunhada a fitava com hostilidade.
	Meu irmo no faria isso!  a moa disse.
	Anna!  Alek gritou.  Chega!
	Ele ama voc. Como pode pensar que te magoaria? Meu irmo  um homem honrado.
	As coisas no so to simples como voc pensa, Anna  Jlia protestou em defesa prpria, mas Anna no entendeu o sentido; talvez nem quisesse entender.
	Voc no conhece meu irmo, do contrrio no pensaria que ele era capaz de uma traio.
	Anna!  Alek repreendeu-a. Falou qualquer coisa em russo.
Anna respondeu tirando o avental, jogando-o sobre o balco e retirando-se do apartamento.
	Peo desculpas pelo comportamento de minha irm  Alek disse assim que Anna saiu.  H uma reunio muito importante sobre mercado esta tarde. Preciso estar presente para. responder a certas perguntas. Se prefere que eu no com parea, arranjarei algum para me substituir.
Jlia sentia-se incapaz de tomar a mais simples das decises. E Alek continuou:
	Sugiro que esteja presente. Se achar que estou dizendo alguma coisa que prejudique a Indstria Conrad, interrompa-me. Seria bom que Jerry tambm comparecesse.
	Alek, acredito em voc. Por favor, tente entender.
	V  reunio, Jlia  ele insistiu.
	Muito bem, irei.
Ele retirou-se do apartamento e Jlia ficou s. Raramente sentira-se to abandonada, como uma morta viva. Insegura, perdida, solitria.
Seus pensamentos a deprimiam. Vestiu-se, determinada a continuar vivendo normalmente at resolver seu problema.
Foi s quando se sentou  mesa no escritrio que tomou a primeira deciso que julgou sensata desde que o pesadelo comeara.
Pegou o telefone e ligou para Roger.
	Aqui  Jlia Conrad. Quero falar com o sr. Stanhope.
	Um momento, por favor.
	Jlia, que surpresa!  Roger exclamou, com sua voz de veludo.
	Soube que voc se encontrou com meu marido  ela disse, sem mesmo o cumprimentar.
	Ento, j tomou conhecimento de nosso encontro?
	Alek me contou. Estou te telefonando com o fim de te proteger. Alek preveniu-o para ficar longe de mim. Se tem amor  vida, no entre em contato comigo.
	H um engano a, Jlia. No me encontrei com seu marido por acaso. Foi ele quem me telefonou, e seu nome no entrou  nossa conversa. Alek queria me faiar sobre as tintas Phoe-nix, esperando entrar num acordo. Naturalmente que a Tintas Ideal est muito interessada no produto.
	Boa tentativa, Roger, mas no vai funcionar.
	Espere para ver  ele disse, com uma risada sarcstica.
Jlia desligou o telefone.
	Sra. Conrad, sente-se bem? Est muito plida.
Jlia olhou ao redor e viu uma empregada idosa que trabalhara para seu pai, e que a conhecia desde menina.
	Vou ficar bem em alguns minutos  respondeu.
	No acha interessante consultar um mdico?
Jlia no conhecia um mdico especializado em coraes destroados. Por isso insistiu:
	No, no preciso de... mdicos.
	Acho que sim. Vou falar com Virgnia para marcar uma hora para a senhora. No pode continuar andando por a como se fosse desmaiar a qualquer momento.
Jlia mal a escutou. Saiu correndo e foi  sala do irmo.
	Jlia, Santo Deus, sente-se.  Jerry recebeu-a com essas palavras.  Voc parece um fantasma ambulante.
	Estou bem  ela mentiu.
	Quer um copo d'gua?
A ltima coisa sobre a qual Jlia queria discutir era seu estado de sade.
	Imagino que esteja aqui para saber o que Alek disse a Roger  Jerry continuou, com o copo d'gua na mo.  Mandou que ele deixasse voc em paz. Eu devia ter feito isso antes, o rapaz  um canalha.
	Telefonei para Roger e...
	Voc falou com Roger?  Jerry interrompeu-a, surpreendido.
	Falei, esta manh.
	Que explicao ele deu? No importa, posso adivinhar.
Naturalmente que no iria contar a verdade. O que voc esperaria que Roger dissesse? Como pde fazer coisa to idiota?
	Eu...
	Imaginei que fosse mais esperta, Jlia.
	Roger garantiu que Alek tentou fazer negcio com nosso mais forte competidor.
	No acredito nisso nem por um segundo.
Jlia tambm no acreditava, mas estava to receosa... Precisava da opinio de Jerry, da certeza de que ela no faria o mesmo erro pela segunda vez.
	No percebe, Jlia, que est entrando no jogo de Roger?
 exatamente o que ele queria que acontecesse. O rapaz se exultou com seu telefonema, garanto.
	Eu... eu... no encaro os fatos dessa maneira.
	Entrou em contato com Roger embora sabendo que tipo de homem ele , e esperou que te dissesse a verdade? Voc tem feito bobagens em sua vida, Jlia, mas esta foi a pior.
	No. A pior, Jerry, aconteceu h trs anos atrs. Foi quando confiei em Roger, acreditando em amor e lealdade.
	Mas acredita em Alek, no?
	Naturalmente.  .
	Ento, por que entrou em conato com Roger, Jlia?
	Porque pensei... pensei que ele pudesse esclarecer   alguma coisa.
	E agora, vai acreditar em Alek ou no?
-> No sei. Voc no o despediu?
	No, e no farei isso. Se o quiser fora da fbrica, faa-o voc mesma. Eu acredito nele.
	Jerry, por favor, tente me entender. Pensa ento que no desejo tambm acreditar em Alek?
	Deixe as coisas como esto, Jlia. O tempo dir se ele   ou no culpado.
	No posso largar o destino da companhia  merc de seu instinto. No tenho outra sada, preciso despedi-lo.
	No pode fazer isso.

	Sou a majoritria da firma, posso fazer o que bem entender. S no quero brigar com voc, Jerry.
	Se mandar Alek embora eu...
- Jerry, por favor, tenho de fazer isso, me entenda.
	Se despedir Alek, eu peo minha demisso.
	Engraado, lembro-me de ter dito as mesmas palavras a papai h trs anos atrs. Acreditei em Roger, recorda-se, no?  claro que sim, como poderia ter esquecido?
	Uma semana.  Jerry disse.  Saberemos mais daqui a uma semana. Tudo o que te peo  que d a ele uma oportunidade para provar sua inocncia.
	Recordo-me de ter pedido o mesmo a papai, no caso de Roger.
	Alek no  Roger, Jlia. O que  preciso se fazer para provar isso a voc?
	Acho melhor que eu me retire da presidncia da fbrica.
	No seja ridcula. Apenas d tempo ao tempo, como j disse.
	Quanto mais Alek permanecer aqui, mais saber do segredo de nossas tintas.
	Jlia, Jlia, e por acaso ele j no sabe de tudo, das frmulas que ele mesmo criou?
	Muito bem, vou dar a Alek mais uma semana.
	Aposto que tudo se esclarecer.  Jerry sorriu, aliviado.
Jlia preparava-se para sair quando se lembrou da reunio que o marido mencionara para aquela tarde. Disse ao irmo:
	Alek acha que  melhor ns dois estarmos presentes. Voc pode ir?
- Tenho um dia cheio, mas irei. Voc vai?
	Vou.
Alek aguardava com ansiedade a chegada de Jlia e Jerry. Este foi o primeiro a entrar na sala de conferncias, e sentou-se ao lado dele.
	Falou com Jlia?  Alek perguntou.
	Falei. Mas nunca vi minha irm assim. Esse imprevisto a consome.
	No est sendo fcil para nenhum de ns. Eu gostaria de saber como agir para limpar meu nome. Porm Jlia no quer me ouvir.
	Seria bem mais simples se ela fosse um homem.
	No, no seria.  Alek riu pela primeira vez em dias.
	Para for-la a agir com critrio, seria. Mulheres misturam emoes com trabalho.
	No todas as mulheres foram tradas como Jlia foi.
Compreendo seus temores, mas ao mesmo tempo quero que ela acredite em mim porque me ama o suficiente para saber que eu no faria nada para prejudicar qualquer um de vocs.
	No sei mais em que Jlia acredita  Jerry disse, depois de alguns segundos.  Pedi a ela que esperasse uma semana.
	Uma semana  Alek repetiu.  Nada vai acontecer em uma semana. As tintas s entraro no mercado em duas ou trs semanas, no mnimo.
	Estou preocupado com minha irm. Ela no me parece bem.
	Jlia no come quase, trabalha demais e dorme pouco.
	Maldio!  Jerry blasfemou.  Pensei que Stanhope estivesse fora de nossas vidas para sempre. Se algum foi bobo, esse algum fui eu. Devia ter calculado que ele voltaria em cena quando fssemos pr no mercado nosso surpreendente produto. Tnhamos de estar preparados para isso.
	Ningum poderia adivinhar.
	Eu poderia  Jerry sussurrou, irritadssimo.  Dessa vez, alm de tudo, Roger abala a confiana que depositamos uns nos outros.
O pessoal esperado para a reunio chegava. Alek suspirou. Todos na sala aguardavam pela chegada de Jlia.
	Virgnia, por favor, tenho uma reunio esta tarde.
	J estou com a assistente do dr. Feldon na linha. Espere apenas alguns minutos.

	Tudo bem, senhorita  Virgnia disse ao telefone.  Obrigada por sua ajuda.
	Ento?  Jlia perguntou  secretria.
	s cinco horas. O doutor vai atender voc entre duas clientes.
Jlia concordou, embora se arrependesse por ter cedido com tanta facilidade. Ela sofria era de stress e tenso, compreensvel devido s circunstncias. Um psiquiatra seria mais recomendvel para seu caso.
	No se esquea da consulta, por favor  Virgnia recomendou.
	No, no, estarei l.
Ao entrar na sala de reunies ela pediu desculpas pelo atraso.
Alek no tirava os olhos da esposa; mas no era um olhar de dio, e sim de amor. Jlia sentiu um n na garganta. Teria preferido saber que ele estava com outra mulher na porta do restaurante em vez de com Roger.
Foram apresentados vrios filmes de propaganda da nova tinta. De repente, Jlia sentiu que a sala comeava a girar. As luzes pareceram se apagar e ela viu-se na completa escurido. Ao recuperar conscincia estava deitada no cho tendo Alek ao lado, amparando-a, com ansiedade no olhar.
	O que houve?  ela quis saber.
	Voc desmaiou  Jerry disse.
	Onde foram parar todos?
	Pedimos que sassem, a reunio foi adiada.
Alek ergueu-a do cho. Jlia tentou afast-lo, porm ele resistiu, beijando-a na testa:
	No! Pode me odiar depois, mas, por agora, deixe-me te ajudar.
	O meu problema, Alek,  acreditar em voc.
	No vamos falar sobre esse assunto agora. Seu problema  exausto.
	No sei o que houve comigo, mas garanto que no foi nada grave.
Jerry disse ento a Alek:
	No  melhor carreg-la para o escritrio?
	No  Alek respondeu , vou lev-la  casa.
	Se no se importam, prefiro fazer minhas prprias decises  Jlia declarou a ambos os homens.
Eles, contudo, no lhe deram ouvidos. Fizeram meno de ergu-la.
	Estou bem  Jlia protestou, pondo-se de p.  Vo cuidar de suas vidas que eu cuido da minha.
	Jlia, por Deus, reflita  Jerry repreendeu-a.  Voc perdeu os sentidos h pouco.
	Sei disso.
	Ento deixe Alek te levar para casa.
	No!
Talvez seja melhor que voc a leve, Jerry  Alek sugeriu.
	Cus, homens, eu desmaiei, no sofri uma lobotomia.
Sinto-me perfeitamente capaz de tomar minhas decises, e no sairei do escritrio antes de terminar o que tenciono fazer.
- Algumas dessas suas decises precisam ainda ser discutidas  Jerry falou, furioso.
	Jerry...  Alek comeou a dizer.
	Um momento, Alek, isso  entre mim e minha irm.
Ela est nervosa com tudo o que aconteceu, e decidiu "bancar" a detetive.
	No entendo  Alek murmurou.
	Jerry, importa-se de falarmos sobre o caso em outra ocasio?  Jlia interferiu.
	No, Alek tem direito de saber. Conte a ele.
	Jlia?  Alek encarou-a.  O que Jerry est querendo dizer?
	Nada, nada.
	Pois bem, ento eu falo  Jerry tomou a palavra.  Jlia teve a "brilhante" ideia de telefonar para Roger dizendo que sabia acerca do encontro na porta do restaurante, e que voc o prevenira para ficar longe dela.
	E o que Stanhope respondeu?
	No  difcil imaginar.
	No acreditei em Roger, Alek, nunca acreditei em Roger.
	O que minha irm esqueceu  que Roger no  tolo. Ele inventou toda uma histria de voc estar querendo vender o segredo de nossas tintas a Tintas Ideal.
Jlia ficou observando o marido que se distanciava aos poucos, emocional e fisicamente. Ele lanou-lhe um olhar gelado.
	Pois bem, faa suas decises, Jlia, que eu fao as minhas.
	Sem outra palavra, Alek saiu da sala.
	Por que voc teve de falar a ele sobre meu telefonema?
	Jlia perguntou ao irmo, bastante irritada.
	E por que no? Alek tinha o direito de saber.
Cobrindo o rosto com as mos, ela balbuciou:
	Preciso ir. Falarei com voc amanh cedo.
Ela chegou no consultrio mdico um minuto antes da hora marcada. Foi conduzida a uma sala onde a enfermeira lhe fez algumas perguntas.
	Basicamente, tenho vivido sob grande presso nestes ltimos tempos  Jlia explicou.  Esta tarde desmaiei. Eu! Mal posso acreditar!
Aps alguns minutos o dr. Feldon a examinava.
	Seu desmaio  normal  ele disse.   um sintoma comum em muitas mulheres grvidas.

CAPTULO XII

Grvida?  Jlia repetiu, chocada.   Ento, a nusea e o desmaio aconteceram porque estou esperando um beb?
	Sim, porm tudo se apresentou de modo mais complicado por causa de seu estado emocional.
	Mas no tenho nusea pela manh.
	Muitas mulheres no enjoam de manh, s  tarde, e voc pode ser uma dessas.
	No sei como no imaginei...

	Como j deve saber, Jlia, no cuido de gestantes h anos, mas vou te recomendar um excelente mdico. O nome dele  dr. Lois Brandt e minhas pacientes ficaram muito satisfeitas com o tratamento recebido.
	Tudo bem  Jlia concordou, ao mesmo tempo chocada e entusiasmada, embora achasse no ter direito a tanto entusiasmo.  De... quanto tempo estou grvida?
	Calculo que de duas semanas.
No podia ser mais, ela concluiu, mas surpreendeu-se pela gravidez ter se manifestado to cedo.
	Vou receitar algumas vitaminas e cuide de sua dieta alimentar  o dr. Feldon recomendou.  Voc tem dois quilos a menos da tabela. Coma muitas frutas e legumes.
Jlia saiu do consultrio mdico alguns minutos mais tarde, sentindo-se leve. Um beb! Iria ter um beb! Alek... Alek.
Agora, outros problemas precisavam ser considerados em sua separao. Uma criaturinha surgia.
Ela ficou indecisa. No sabia o que dizer a Alek. Pelo menos no falaria nada por enquanto.
Voltou ao apartamento. Ouviu barulho no quarto de casal. Alek l estava, pegando roupas do armrio; e sobre a cama havia uma mala aberta.
	Alek, o que est fazendo?  Jlia perguntou.
	 bvio, no?  ele continuou arrumando a mala.
	Pretende se mudar? Onde vai morar?
	No sei ainda. Mas no creio que manteremos contato depois de minha partida.
	E a fbrica, Alek?
	Das quatro e meia desta tarde em diante no serei mais funcionrio da Indstria Conrad.
	Ah... Vai trabalhar para Tintas Ideal?
	No, Jlia, no vou trabalhar para seu competidor. Sei que no adianta falar, mas a honra de um Berinski  tudo o que tenho a te oferecer como prova. Pelo sangue de meu pai, juro que no faria nada que magoasse voc ou Jerry. Isso inclui no trabalhar com Tintas Ideal ou com qualquer outro competidor seu.
	Mas, por que vai embora agora?  ela perguntou, sentando-se na cama. Receava que as pernas no a aguentassem por mais tempo.
	Tive esperana, Jlia, de que voc enxergasse a verdade, mas no acredito mais que isso seja possvel.
	Por que no?
	Se cr na palavra de Stanhope mais do que na minha, ento sei que no ser capaz de reconhecer a verdade quando ela vier  tona.
	Vai querer um divrcio, Alek?
	Isso fica a seu cargo. J disse que minha religio no aprova o divrcio, mas no posso viver com voc, Jlia, nunca mais.
	Nossa vida no foi to m assim, foi?
	No, Jlia, viver com voc no  ruim, se o marido no se importa de ter como esposa um porco-espinho.  Aps refletir melhor, ele emendou:  Eu no devia ter dito isso, desculpe.
	Eu tambm te magoei, Alek. Se por acaso se esquecer de alguma coisa aqui, para onde devo mandar?
	Entregue a Anna. Ela saber onde estou.
	Acho... acho que est sendo precipitado. Por que no pensa mais um pouco?
	No h nada a pensar. Adeus, Jlia.  Ele apanhou a mala e saiu.
Jlia ficou imvel, paralisada. Mal conseguia respirar. Ou pensar. Aos poucos foi se recuperando.
Tivera um dia terrvel. No espao de algumas horas desmaiara, soubera que estava grvida, e o marido a deixara. As perspectivas para o futuro no eram nada promissoras.
O telefone tocou quinze minutos mais tarde e ela agarrou o fone, rezando para que fosse Alek.
	Al?
	Jlia, Alek est?  Era Jerry.  Cheguei h pouco no escritrio e encontrei uma carta dele pedindo demisso. O que voc sabe sobre isso? Oua, ponha-o no telefone que o convencerei a mudar de ideia.
	No posso. Gostaria de poder, mas Alek no mora mais aqui.

	Como?
	Ele se mudou. Quando entrei em casa encontrei-o fazendo a mala.
	Por que no impediu que ele sasse?
	Como, Jerry?
	Ora, sei l. Talvez lhe dizendo que acreditava e confiava nele. Poderia agradecer-lhe pelos dois longos anos de trabalho no projeto destinado a concorrer para o crescimento da nossa indstria. Poderia mesmo ter dito que o amava e que no de sejava que ele se fosse.
	Sim, acho que poderia...

	Acredita nele agora, Jlia?
	No... sei bem, mas acho que sim, porque no acreditar di muito.
	V atrs dele, Jlia, antes que seja tarde demais.
	J  tarde demais  ela sussurrou.  No sei onde Alek est, ele no quis me contar.
Na manh seguinte Jlia esperou pela irm de Alek na cozinha.
	Bom dia, Anna  cumprimentou-a.
Anna no respondeu. Ps o avental e ignorou a presena de Jlia.
	Voc deve saber que Alek mudou-se, no? Sabe onde ele mora?
	Naturalmente que sei, ele  meu irmo.
	Importa-se de me dizer onde?
	Para qu? Para faz-lo sofrer ainda mais? Para acus-lo?
Para duvidar de sua honra? No, no te contarei nada sobre meu irmo.
	Eu amo Alek  Jlia confessou.  Apenas tive medo.
Sabe, Anna, h trs anos atrs amei um homem que traiu minha famlia e a mim. Acreditei nele quando no devia. Defendi-o, e briguei com meu pai. Enquanto discutamos, papai sofreu um enfarte e morreu. Culpei-me por isso. Pode agora entender como me foi difcil acreditar em Alek?
	Meu irmo jamais te trairia  Anna declarou simples mente.
	Sei disso, sempre soube.
	Meu irmo no  esse outro homem.
	Sei disso tambm. Mas errei e dei a Alek motivos para ele crer que eu duvidava de sua honestidade.
Jlia parou de falar, percebendo que seus argumentos no convenceriam Anna.
Vestiu-se e foi para o trabalho, mas sem entusiasmo. Contudo, em mais dez dias as tintas Phoenix estariam  disposio do pblico. A Indstria Conrad seria a primeira a entrar num novo mercado de produtos de pintura, graas ao talento de Alek. Mas isso no significava nada para ela sem Alek a seu lado.
Jerry esperava-a.
	Descobriu onde ele est?  perguntou.
	No. Anna no quis me contar. No a culpo, no. Eu faria o mesmo tratando-se de meu irmo.
	Vou pr nosso investigador, Rich Peck, atrs de Alek.
	No! Deixe Alek com seu orgulho, j roubei tanto dele...Mas, mudando de assunto, Jerry, vou precisar de umas frias.
	Todos ns estamos precisando de frias.
	Porm as minhas sero longas. Estou grvida.
Alek sentava-se  mesa da Biblioteca Pblica e surpreendia-se ao ver a reduzida frequncia do local. Assistira a um jogo de beisebol na vspera e tivera de esperar em fila quinze minutos para comprar o ingresso. No fazia sentido para ele que as pessoas daquela cidade preferissem beisebol a livros.
Talvez esse fosse seu problema. Conhecia mais de livros do que de pessoas. Quem sabe por isso estragara seu casamento? H duas semanas se mudara e nunca mais vira Jlia.
Assistira ao programa de televiso no dia do lanamento das tintas Phoenix. Jlia l estava, plida mas linda. Ela respondera a todas as perguntas dos reprteres, falara sobre as ideias avanadas de seu pai quanto  indstria de tintas. Alek admirara-se ao ouvir seu nome mencionado. Sim, Jlia lhe dava grande crdito pelas inovaes.
Pensou longamente acerca do que ela dissera e se perguntou se lhe mandava uma mensagem atravs da TV. Jerry estava ao   lado da irm, e dera vrias explicaes adicionais.
Alek fechou o livro que lia. Confiara em Anna para dar notcias da esposa, mas Anna recusava entrar em detalhes. Ela achava que, se Alek quisesse saber alguma  coisa, que fosse perguntar a Jlia.
Ele ps o palet e saiu da biblioteca. Chovia. Aps a primeira quadra ficou ensopado.
Ao passar junto a um caminho estacionado viu, pelo espelho lateral do veculo, o mesmo homem que estava na biblioteca, na mesa perto da dele. Estaria sendo seguido?
Alek parou e esperou. O homem prosseguiu andando. Teria Stanhope contratado uma pessoa para segui-lo? Era bem do carter fraco de Roger empregar algum para fazer, em seu lugar, qualquer trabalho pouco recomendvel. Alek caminhou mais um pouco e entrou num restaurante. No havia comido nada desde o caf da manh.
Estava to perdido em seus pensamentos que nem viu o tal homem aproximar-se.
	Acho que  melhor eu me apresentar  o desconhecido disse.  Meu nome  Rich Peck.
	Al  Alek cumprimentou-o, estendendo-lhe a mo.
	Percebeu que eu te seguia, no?  Rich sentou-se  mesma mesa, alis sem ser convidado.
	Tive suspeitas de que eu estava sendo seguido  Alek respondeu.  H razes especiais para isso?
	Sempre h uma razo para tudo. Dessa vez algum est me pagando, e muito bem. Trabalhos assim bem pagos so raros hoje em dia.
	Roger Stanhope est pagando?
	Stanhope?! O homem no tem onde cair morto! Oh, por falar nele, no vai process-lo por agresso?
	No, acho que j o castiguei suficientemente. Mas de uma coisa estou certo, Roger vai ficar longe de Jlia, pois sabe o que lhe acontecer se no mantiver distncia de minha mulher.
- Oua, Stanhope tem mais problemas do que voc imagina  Peck continuou.  O homem ficar longe da Indstria Conrad pelos prximos quinze anos, se viver tanto, o que pessoalmente duvido. Ele emprestou dinheiro da pessoa errada, e est em pssima condio financeira.
	Voc sabe muito sobre o canalha.
	Sou pago para descobrir o que posso.  Peck encolheu os ombros.   o rapaz  um livro aberto. Voc, em compensao, no  muito fcil de ser seguido. E sua irm no abre a boca para nada; finge no entender ingls.
	Quem te contratou para me seguir?
	Sinto muito, mas no posso revelar.
	Foi Jlia?  O corao de Alek palpitou mais forte.
	No. De qualquer maneira, no falarei mais nada. Apenas posso te dizer que no foi ela. Jlia no sabe de minha tarefa, embora o que eu tenha para te contar a envolva.
	Ento conte.
	Porm primeiro preciso que me responda a algumas perguntas.
	No tenho tempo para isso.  Alek ergueu-se da mesa e retirou-se.
No foi seguido pelo investigador. Mas, aps alguns passos, reconheceu que errara. Sua impacincia fizera-o perder o que mais desejava na vida: informaes sobre Jlia. Voltou para o restaurante. Peck continuava no mesmo lugar.
	Mudou de ideia?  o rapaz perguntou.
	Conte-me!
	Sem problema, amigo. Jerry achou que havia algo que voc gostaria de saber sobre a irm dele. Jlia vai ser me.
Se  que estou bem a par da situao, isso significa que voc vai ser papai.
Alek caiu sentado na cadeira.
	Quando?  indagou.
	Isso no posso responder com exatido. Mas acho que ela est grvida de um ms apenas, talvez dois.
	Voc a tem visto? Jlia est bem?
	A ltima vez em que a vi, pareceu-me muito plida.  Peck fez uma pausa.  Vomita sem parar, assim me contaram.  Mas dizem que  perfeitamente normal no estado dela. No que eu saiba muito sobre mulheres grvidas, mas...
Um beb, Alek pensou. Jlia ia pr no mundo seu beb. Devia ter lhe comunicado, e no permitir que ele recebesse a noticia atravs de um estranho.
	Voc pode levar um recado a Jerry?  Alek indagou.
	Claro.
Ele fez uma pausa. Estava furioso com Jlia, mas Jerry no tinha nada a ver com o caso, tomara a iniciativa de mandar Peck lhe contar o que ele deveria ter sabido desde o incio.
	Que recado quer que eu leve a Jerry?
	Diga que ele vai ser um tio fora de srie!
Jlia comeu um pedao de salso e empurrou o prato para o lado. Leu um pouco e depois mordeu uma ma.
O manual que emprestara da biblioteca descrevia todos os estgios da gravidez. Jlia conservara o livro longe das vistas de Anna e o levava consigo todos os dias ao escritrio. Quando Jnior nascesse ela provavelmente j teria decorado as trezentas pginas.
Referia-se ao seu beb como Jnior, embora no soubesse se ia ser menino ou menina. Engraado, h algumas semanas atrs nem sabia que estava grvida, e agora lhe parecia que o beb sempre fizera parte de sua vida.
A noite, adormecia com a mo no ventre, e conversava com Jnior. Contava-lhe sobre seu dia de trabalho e o quanto sentia a falta do pai dele.
Jerry e Virgnia estavam sempre em pnico por causa de seus incmodos de gravidez. Jlia juraria que a secretria sofria mais que ela. E Jerry... Sorriu ao pensar no irmo e em como ele se tornara solcito nos ltimos tempos. Constantemente lhe perguntava acerca de sua sade e at consultara o mdico sobre os enjoos das tardes.
Ela gostou muito do ginecologista aconselhado pelo dr. Feldon.
Jlia entendia cada vez mais das alteraes de seu corpo. Os seios cresciam, e logo ela pensou em como Alek haveria de gostar da mudana.
Alek.
Tentava no pensar em Alek, no pensar nos erros que fizera no breve espao de tempo de seu casamento. Mais cedo ou mais tarde teria de entrar em contato com o marido. Pediria
perdo por tudo. Afinal, as tintas Phoenix entravam vitoriosas no mercado.
Devia tanto a Alek e o tratara to mal! Nunca mais pedira notcias dele a Anna.
Ps a mo no ventre e confidenciou ao filho:
	Seu pai  um homem maravilhoso, Jnior. Ele vai nos amar muito.
Ela comeu outro pedao de salso e virou a pgina do livro. Leu ento sobre todo o processo do parto. Esperava que Alek estivesse junto na hora difcil do nascimento do beb.
Assim que terminou de almoar foi  sala para fazer os exerccios recomendados pelo mdico. Aps dez minutos parou, exausta.
	Espero que voc aprecie meu esforo, filho  disse ao bebe.
Bebeu um copo d'gua e voltou  ginstica.
Sentia-se melhor agora. As primeiras duas semanas depois da mudana de Alek foram um pesadelo. Ela cumpria suas obrigaes, trabalhava, comia, e dormia; mas tudo era feito como se uma sombra negra cobrisse seus dias, e sempre sentia muita ansiedade. Inconscientemente esperava que Alek entrasse em sua sala, como costumava fazer. A esperana de v-lo de novo, de lhe contar sobre o beb, eram o que a mantinha viva.
A campainha tocou. Com certeza era Jerry para saber de seu estado de sade.
	Mas no era Jerry. Quando ela abriu a porta deparou com Alek, mais furioso do que jamais o vira antes.

CAPITULO XIII

Alek!  Jlia no conseguiu dizer unada mais.
	Soube que voc est grvida.  verdade?    ele perguntou, o olhar frio como granito. Estava furioso e no se preocupou em disfarar.
	E verdade, sim.
	Devia ter me comunicado. Representei parte importante no evento, concorda?
	Sim, eu sei. Mas  que...  Ela abriu a porta de par a par e acrescentou:  Entre, por favor.
	No ia me contar sobre o beb?  A irritao de Alek parecia crescer a cada minuto.
	Claro que eu ia te contar.
	Quando?
	Quer se sentar?  Jlia convidou-o.

	No, apenas quero uma resposta.
Jlia ignorou a insistncia e disse:
	Quer beber alguma coisa?
	No; responda  minha pergunta, Jlia!

	No precisa gritar. Eu ia te falar, como poderia no fazer isso? O beb  parte de voc tanto quanto minha. No h dvida de que te contaria sobre ele. Como esconder coisa to importante?
	Essa  exatamente a pergunta que fao.
Alek apertava as mos e Jlia desejou muito atribuir o gesto a um esforo para no abra-la.
Ela foi  cozinha e bebeu mais um copo d'gua. Alek hesitou um pouco mas acabou seguindo-a.
	Anna sabia?  ele perguntou.
	No. Tive medo que Anna te contasse. Sabe, estou bebendo dois litros de gua por dia, o que equivale a oito copos cheios.
Ela no sabia bem por que considerara to importante contar ao marido sobre a gua, quando tinham tantas outras coisas a discutir.
	O beb precisa de gua?  Alek perguntou.
	De certa maneira, acho que sim. Mas o mdico se preocupa mais  comigo.
	Por que est ele preocupado com voc?
Jlia no pretendera alarmar o marido, porm tinha de falar acerca de qualquer assunto a fim de acalmar a tenso reinante no ar.
	Gozo de perfeita sade, Aiek, no fique apreensivo.
	Nesse caso, por que o mdico se preocupa com voc?
	Mdicos so pagos para mostrar interesse. Mas a verdade  que estou tendo uma gravidez normal. Jnior vai muito bem.
	Jnior?
	 como o chamo... ou a chamo  Jlia explicou.
O dio de Alek ia aos poucos sendo substitudo por sentimentos de amor e devoo to profundos que a tocaram no ntimo. S em pensar que abusara daquele amor, que duvidara da palavra dele, Jlia ficou com um n na garganta e com os olhos cheios de lgrimas.
	Jlia! Est chorando?
	No se preocupe, Alek, faz parte da gravidez. Alm do mais, sou muito emotiva. Outra noite chorei por causa de um programa de televiso.  Jlia no lhe contou que fora no programa das tintas Phoenix. De fato ela chorara de saudades do marido.  Leia a pgina cinquenta e trs deste livro, Alek.
Explica tudo sobre o choro na mulher grvida.
Alek passou uma vista d'olhos  pgina mencionada e depois perguntou:
	Como vem se sentindo?
	Muito bem. No tenho nusea pela manh como a maioria das mulheres, mas  tarde.
	Tem outros problemas?
	No. Ao contrrio, estou muito bem e....  Ela parou de falar ao perceber como Alek a fitava.  H algo de errado comigo?
	Esquea, esquea, Jlia.
	No; fale, por favor.
	Voc est mais linda que nunca!
	No posso estar bonita, Alek. Considerando-se o modo como Jerry e minha secretria me olham, devo estar com aspecto horrvel.  Aps uma pausa, ela acrescentou:  Tenho sentido tanto a sua falta! Quis te contar sobre o beb imediatamente, mas ao chegar em casa, naquela tarde, voc fazia as malas.
	E no me disse nada por isso?
	Se eu tivesse contado, as coisas seriam diferentes?
	Claro.  Depois, pensando melhor, ele acrescentou:  No... sei.
	Eu ferira tanto voc, Alek, e estava to ferida tambm, que te contar sobre o bebe pareceria chantagem emocional.
	Mas acredita agora que nunca te tra, Jlia?
	Acredito, e acho que sempre acreditei..., s no soube como te demonstrar meu amor e minha confiana. No h palavras para explicar como me arrependo da dor que te causei. Quando nos casamos, no esperava me apaixonar por voc.
	Nem eu, pelo menos no tanto. Um visto permanente me pareceu um bom negcio. Lutei para no me envolver emocionalmente, mas a cada dia me apaixonava mais, apesar de meus esforos em contrrio.
Depois que minha av morreu, achei que no sobreviveria
no fosse por voc. Seu amor e consolo significaram o mundo para mim. Sempre me lembrarei de nosso dia na praia. Mas s o que posso dizer agora  que te amo, Alek, e que me arrependo do mal que te fiz. Juro que nunca mais duvidarei de sua palavra.  Jlia no conseguia parar de chorar.
	No chore, Jlia.
Ela notou que Alek no a chamara de querida, como de hbito. Com um sorriso forado, perguntou:
	Sei que  pedir muito, mas pode um dia me perdoar por eu ter entrado em contato com Roger?
	Se voc puder me perdoar por eu permitir que meu orgulho prejudicasse nosso relacionamento.
	Seu orgulho? Oh, Alek, eu errei tantas vezes e apesar disso voc continuou me amando.
	Eu tambm fiz meus erros.
	Perguntei sobre voc incontveis vezes a Anna e ela recusou me dar qualquer informao.
	Ah, minha irm, minha irm!  Alek exclamou.  Ela usou o mesmo jogo comigo. Depois de ter feito mil perguntas ela enfim disse que, se eu estava muito curioso, que me dirigisse pessoalmente a voc.
	E com razo. Nenhum de ns dois tinha o direito de a pr no meio de nosso desentendimento, utilizando-a como informante.
	Concordo. Contudo, ainda no me conformo de voc no me ter dito nada sobre nosso beb.
	Eu pretendia contar, Alek. Mas, quem te disse que eu estava grvida?
	Importa saber, Jlia?
	Importa.
	Bem, foi um investigador particular que...
	Voc contratou um investigador?
	No. Foi Jerry. Ele achou que eu tinha direito de saber de meu filho.
	E agora que sabe, Alek, o que tenciona fazer?
Possuo vrias exigncias...
	Quais?
	Exijo ter a possibilidade de estar sempre presente na vida de meu filho.
Jlia concordou com um aceno de cabea, desejando que Alek estivesse sempre presente em sua vida tambm.
	Que mais?  ela perguntou.
	Gostaria muito de ser seu marido, de viver com voc, de te amar e de ter outros filhos, talvez dois, dependendo de como se sente. Concorda?
Jlia abraou-o com tanto entusiasmo que quase tropeou na cadeira.
	Cuidado, querida...
	Repita... Chame-me de querida. Oh, Alek, tive tanta saudade de ouvir isso. Espere, beije-me antes. Adoro quando voc me chama de querida ao mesmo tempo em que me beija.
	Querida!
	Oh, Alek!
	Jlia.
Ele carregou-a para o quarto e a ps na cama.
	Voc  to romntico, amor!
	Vou ficar muito mais romntico em trinta segundos.

	Que bom! Depressa, Alek, precisei tanto de voc.
Ambos se despiram.
	Eu deveria tomar banho antes  Jlia declarou.

	No h tempo para isso agora. Mais tarde tomaremos banho juntos.
	Mas  que acabei de fazer meus exerccios e estou suada.
	E vai comear com outros exerccios j.
Ele beijou-a, provocando-a com a lngua. A boca de Alek, na opinio de Jlia, era maravilhosa, sedutora e sensual. E ele a conduziu aos cus, ele levou-a s estrelas.
Minutos mais tarde, exaustos, ofegantes nos braos um do outro, tinham os corpos unidos e as mos entrelaadas.
	Voc  to gostosa, Jlia  Alek sussurrou, os olhos cheios de paixo.  Acho que eu havia me esquecido de como era deliciosa, do contrrio teria voltado h mais tempo.
Alek beijou-a, dessa vez um beijo suave, gentil.
Uma lgrima escorreu pelo canto dos olhos de Jlia, que disse:
	Pare de falar essas coisas bonitas seno comeo a chorar de novo.
	Talvez seja melhor te provar como me sinto em vez de falar tanto.
Alek roou a ponta do nariz num dos seios de Jlia e depois beijou-lhe o mamilo rgido. Ela se excitou e gemeu:
	Eu te amo, querido.
	E voc  minha jia  Alek respondeu, enquanto seus corpos se colavam de novo, numa satisfao mtua.
Jlia dormiu nos braos do marido, a cabea apoiada no trax musculoso. Ao acordar, viu que Alek comprimia-lhe o ventre e conversava com o filho, em russo.
	Dizia a ele para ser bom com sua mame  Alek explicou.
	Ele?
	Posso ser muito feliz com uma filha tambm, pois um dia um jovem ir me agradecer por ser eu o pai de moa to linda. Espere e ver que tenho razo.
	E um dia uma jovem me dir que nosso filho  maravilhoso.
Eles tomaram banho juntos e depois Jlia disse:
	Estou morrendo de fome, e voc?
	Seu apetite aumentou, no, querida?
	Acho que sim.
	Que tal telefonarmos para Jerry? Devemos muito a ele, concorda?  Alek perguntou.
	Concordo, mas hoje no quero dividir voc com mais ningum. H muito tempo amanh para isso. Mas importa-se se agora eu ligar a televiso? Est no hora do noticirio.
	No, de forma alguma, contanto que voc no me prive de meu prazer favorito._ Ele fez Jlia deitar em seu colo e comeou a afagar-lhe os seios, roando o polegar em volta dos mamilos.
Logo estavam se beijando novamente e continuariam assim se as notcias de TV no chamassem sua ateno:
	A Tintas Ideal, companhia estabelecida na cidade, pediu falncia. H perto de trezentas pessoas desempregadas.
Jlia ficou atnita e comentou:
	Eu sabia que os scios tinham dificuldades financeiras, mas no imaginava que a situao fosse to sria.
	No poderiam mais competir com a Indstria Conrad  Alek observou.
	Eu me pergunto o que acontecer com Roger  Jlia murmurou, quase sentindo pena dele.
	Stanhope est acabado no mundo de negcios  Alek declarou calmamente. -  bem conhecido o fato de ele ter tentado prejudicar a Indstria Conrad, e nenhuma firma arriscaria empregar um funcionrio com lealdade duvidosa.
	S sei, querido, que jamais supus que eu pudesse ser to feliz. H alguns anos atrs achei que meu mundo desabara e agora minha felicidade aumenta a cada dia que passa.
Inclinando o corpo para trs, ela passou os braos em torno do pescoo do marido e ergueu o rosto para ser beijada.

FIM

From This Day Forward
1. Groom Wanted (1993)
2. Bride Wanted (1993)
3. Marriage Wanted (1993)
